O eterno recomeçar artístico

Exposição com trajetória de Angelo Venosa será aberta sexta-feira no Palácio das Artes

iG Minas Gerais | gustavo rocha |

Geometria. Traços e recortes geométricos são apenas alguns dos aspectos presentes nas esculturas
SÉRGIO ARAÚJO DIVULGAÇÃO
Geometria. Traços e recortes geométricos são apenas alguns dos aspectos presentes nas esculturas

A clarividência que se espera de alguns artistas, capazes de (pre)ver aquilo que virá a ser sua obra, não é uma constante absoluta. Pelo menos é o que pensa o artista Angelo Venosa, que abrirá uma exposição retrospectiva de seus 30 anos dedicados às artes plásticas, principalmente a escultura, na sexta-feira, no Palácio das Artes.

Ainda que “veterano”, começar um novo trabalho, para ele, é sempre um novo embaralhar de cartas. “Não pretendo cagar regras, mas eu não tenho ideia de onde um novo trabalho vai dar. Quando você está produzindo, com as mãos na massa, é um terreno pantanoso. Você pressente as coisas e talvez não tenha clareza. Depois de algum tempo você tem a impressão de que as coisas clarearam e diz ‘agora, eu cheguei’, mas o caminho até ali não é nada claro. As voltas do produzir é um esforço muito cego. Pelo menos, para mim”, revela o artista.

Paulistano, radicado no Rio de Janeiro, Venosa tem passagem por importantes mostras como as bienais de Veneza (1993), São Paulo (1987) e Mercosul (2005).Também livros, com reproduções de suas obras, publicados pela editora Cosac Naify.

A seleção de trabalhos de Venosa para a exposição que chega a Belo Horizonte é um apanhado do que produziu em sua carreira, mas ele evita uma “cronologia muito didática”.

“A mostra parte de um repertório seleto de obras que expõem o percurso do método e suas questões fundamentais, com as formulações primordiais e os saltos poéticos operados ao longo do tempo. A exposição, que reúne mais de 30 esculturas, não se orienta pela cronologia dos trabalhos, ao contrário, mescla peças de diferentes datas e técnicas, procurando fomentar a compreensão de uma linguagem global, em que os processos e os conceitos se unem e se reclamam necessária e mutuamente”, explica a curadora, Ligia Canongia.

“A ideia é que os trabalhos estabeleçam conexões entre eles, mas de uma maneira subjetiva, a critério de quem vê. Por mais que exista algum fio condutor, é uma coisa que tem força própria. São peças muito diferentes; técnicas e atitudes diferentes. Afinal, estamos falando de 30 anos de trajetória. De qualquer forma, as obras guardam uma ideia, o mesmo desejo. E mesmo os trabalhos anteriores conseguem resguardar esse espírito”, ressalta Venosa.

A exposição já esteve no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM) e na Pinacoteca da São Paulo. Em Belo Horizonte, ela guarda novidades. “Em cada um desses lugares, a configuração mudou um pouco por conta do espaço. Eu sempre coloco um trabalho inédito recente em cada uma delas. O Palácio das Artes é um pouco menor, então eu não pude trazer algumas dos meus trabalhos que precisam de um pé direito mais alto”, diz.

Fronteiras. “A obra dele está entre o expressionismo e a geometria, o artesanato e a máquina, entre a razão e o delírio. Venosa cria situações fronteiriças, que se alternam do fragmento ao todo, do linear ao informe, do lírico ao fantasmástico”, explica Ligia.

Apresentado às palavras da curadora e solicitado que comente essa ambiguidade (ou dicotomia) em sua obra ao longo dos anos, Venosa diz que não estranha a definição. “Ela diz de maneira diferente coisas que eu já falei de maneira mais curta e mais confusa. Mas acredito que seja o trabalho dela (de curadora) ter esse poder de síntese. Eu acho que o trabalho da arte não seja algo voluntarioso. Ele acontece porque você se aplicou e o conduziu por uma vereda determinada. Ele acontece apesar de você mesmo”, diverte-se.

A curadora segue com os elogios ao avaliar as esculturas produzidas pelo artista. “É uma obra singular no panorama mundial da escultura contemporânea. Seu trabalho tem a capacidade paradoxal de se mover no terreno da história, mas sob a perspectiva da crítica e da transformação, de alternar o mundo dos sólidos com os vazios e, sobretudo, de expressar simultaneamente a intensidade das paixões e o recolhimento do silêncio”, diz.

“O trabalho artístico, eu acredito, se insere em uma zona informe, disforme. É um pouco como se você ficasse conversando com alguém em uma língua que você não domina. Parece que você está entendendo, pode ter uma sonoridade parecida… É como se a conversa fosse com um romeno: é uma língua latina, mas é estranha”, finaliza Venosa.

Agenda

O quê. Esculturas de Angelo Venosa, trajetória de 30 anos

Quando. A partir de sexta. De 3ª a sáb., das 9h30 às 21h; dom., das 16h às 21h. Até 24/8

Onde. Palácio das Artes (avenida Afonso Pena, 1.537, centro)

Quanto. Entrada franca

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave