Arte da ordenação pela beleza

Mestre do musical e do melodrama, cineasta Vincente Minnelli ganha retrospectiva no cine Humberto Mauro

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

O astro Kirk Douglas vive Van Gogh na biografia “Sede de Viver”
MGM
O astro Kirk Douglas vive Van Gogh na biografia “Sede de Viver”

“Se a gente pensar no cinema do Minnelli, tem que pensar numa ideia de beleza”. É assim que o curador Rafael Ciccarini define a filmografia do diretor Vincente Minnelli (1903-1986), que ganha uma retrospectiva de hoje a 17 de julho no cine Humberto Mauro. Dentre as mais de 30 obras dirigidas pelo cineasta norte-americano, que vão do filme noir à comédia e aventura, a mostra elenca dez produções dos dois gêneros em que ele mais se destacou: o musical e o melodrama.

“O Minnelli não vê o cinema como construção naturalista da realidade, mas como um lugar de busca da beleza”, explica Ciccarini. Para o curador, o que interessa ao cineasta é a qualidade expressiva de elementos formais, como a composição e a cor, assumindo uma dimensão de construção da fantasia.

Não por acaso, musicais como “A Roda da Fortuna” e “Agora Seremos Felizes”, que estão na programação, são o gênero que Minnelli abraça com mais afinidade. “O musical é o gênero que assume a farsa do cinema: o grande apuro visual na construção de um mundo que só existe na forma”, analisa Ciccarini.

Mais do que uma farsa, o que o cineasta propõe é uma ordenação artificial da realidade por meio da arte. “Para ele, a composição do quadro cinematográfico é a tentativa de organização de um mundo que é caos”, avalia. O curador acredita que essa relação entre visual e beleza aproxima a obra de Minnelli da pintura. E não é coincidência que, entre os melodramas do diretor, um dos destaques selecionados é “Sede de Viver”, cinebiografia de Van Gogh estrelada por Kirk Douglas.

Por transitar nesse universo de emoções fortes – sua filmografia é marcada por amores intensos, alegrias e tristezas intensas, tudo encenado a um ou dois tons acima do realismo – o cinema de Minnelli se encaixou como poucos nas cores fortes e artificiais do Technicolor. A influência dessa mise en scène e desse visual exacerbados são claros na obra de mestres como Rainer W. Fassbinder e Pedro Almodóvar.

Além dos filmes, que incluem ainda os clássicos “Gigi”, “Sinfonia de Paris” e “Assim Estava Escrito, a mostra oferece ainda uma palestra com o ex-professor da Escola de Belas Artes da UFMG Heitor Capuzzo amanhã, às 19h15. “Ele é um dos maiores especialistas em cinema clássico do país. Demos sorte de ele estar aqui durante a mostra do Minnelli porque ele vai poder falar de uma coisa de que ele não só gosta, como domina”, celebra o curador. Capuzzo é autor do livro “Lágrimas de Luz”, sobre o melodrama no cinema, e atualmente leciona na School of Art, Design and Media da Nanyang Technological University, em Cingapura.

Ex-marido da estrela Judy Garland e pai da atriz Liza Minnelli, Vincente Minnelli acabou tendo o nome mais associado à sua vida pessoal do que à própria obra. Foram os críticos da Cahiers du Cinéma que o resgataram como um dos autores dentro da indústria norte-americana.

Ciccarini compara o trabalho do cineasta à pintura do mestre Cézanne. Os dois abordaram temas considerados banais – Cézanne pintou frutas e naturezas mortas – conferindo qualidade artística às suas obras pela maneira como organizam os elementos formais dentro do quadro, “Eles são a prova de que o grande artista não é o cara que faz os grandes temas, mas aquele em que o trivial ganha qualidade artística pela mise en scène, no sentido mais literal do termo”.

Agenda O que. Mostra Vincente Minnelli

Quando. De hoje ao dia 17

Onde. Cine Humberto Mauro (avenida Afonso Pena, 1.537, Centro)

Programaçao completa. www.fcs.mg.gov.br

Quanto. Entrada franca

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