Cara de cidade do interior

Projeto usa a performance para resgatar duas tradições peculiares de Minas Gerais: a quermesse e as bandas civis

iG Minas Gerais | gustavo rocha |

Tradicional. Programação tem cara das festas típicas de Minas Gerais, como as quermesses
KELY AGUIAR DIVULGAÇÃO
Tradicional. Programação tem cara das festas típicas de Minas Gerais, como as quermesses

Engana-se quem pensa que a arte contemporânea nasça apenas dos movimentos urbanos produzidos em grandes cidades do mundo e negue o passado e as especificidades da origem de cada cultura. Pois é buscando duas tradições, bastante mineiras – a quermesse e as bandas civis de música – , que o projeto De Banda Para a Arte realiza sua atividade de encerramento na próxima quinta-feira, na Funarte.

“A nossa ideia foi criar uma plataforma que se diferenciasse dessa temporada da Copa do Mundo, e chamasse atenção para um tipo de sensibilidade que foi esquecida durante esses eventos que primam pelo espetacular”, diz Marcos Hill, um dos curadores, parceiro do performer Marco Paulo Rolla, no coletivo Ceia – Centro de Experimentação e Informação de Arte. “Nosso foco foi na atividade artística tal e qual, dando um enfoque para manifestações populares, como as bandas civis. Coisas que desapareceram ao longo desse processo de comemorações, que pasteuriza as coisas”, completa

As atividades integram a programação do Projeto Funarte Grande Área, com curadoria de Xico Chaves e Luiza Interlenghi. Belo Horizonte, Brasília, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo recebem ações envolvendo 13 artistas visuais.

Na programação de Belo Horizonte, três bandas civis de música serão convidadas para um desafio: um concerto conjunto no qual uma responderá ao desempenho musical da outra. Participam as bandas Filarmônica 1º de Maio, Banda Sociedade Musical Carlos Gomes e Corporação Musical União Operária. O artista plástico Guilherme Morais será o mestre de cerimônias, regendo o concerto-desafio coletivo.

“É algo que faz parte das nossas tradições: a quermesse e as bandas”, lembra a chef e artista plástica Agnes Farkasvolgyi. Ela será responsável por uma das barraquinhas e vai apresentar o trabalho Jardim das Delícias, “Minha inspiração é o quadro de Bosch (‘O Jardim das Delícias Terrenas’) e a ideia é que ele seja todo comestível e, como no quadro, ele pode te levar ao paraíso ou ao inferno”, ressalta a artista.

Além dela, outras três barraquinhas contarão com essa interface entre performance e comida. O artista plástico Marc Davi se inspira em uma combinação clássica e simples da tradição mineira – queijo com goiabada, o famoso “Romeu e Julieta”. “É considerada a sobremesa perfeita. Por outro lado, se você come, ela deixa de existir. Ou seja, há uma mutilação dessa perfeição. Isso não seria um ato destrutivo?”, destaca ele.

Seu trabalho é constituído por esculturas feitas de goiabada e queijo que, por seu formato, lembram pedaços de carne. “Esse canibalismo de comer o outro e deglutir suas melhores qualidades é uma faceta. Por outro lado, se pensarmos que o corpo deixa de existir a partir disso, isso pode levar a outras coisas. Por exemplo, os corpos de pessoas mortas e desaparecidas no período da ditadura militar”, lembra Davi.

“Em tempos de Copa, o que as pessoas costumam oferecer para os turistas em Belo Horizonte?”, indaga Rafael Perpétuo, integrante do coletivo Indigestão, também responsável por um dos quitutes “artísticos” oferecidos nas barraquinhas da quermesse. “Não é a gastronomia, os bares da cidade? Essa questão da comida é algo bastante recorrente no trabalho de muitos artistas, mas nós buscamos um contraponto: o sustentável e o orgânico. Nós gostamos de brincar com coisas surreais, absurdas. Por exemplo, nós vamos produzir um doce a partir de suplementos de proteína e calorias para halterofilistas”, conta Perpétuo. Será que o doce ficou apetitoso? “Fizemos um teste nesse fim de semana e ficou bom. Parece um doce como outro qualquer, mas tem esses ingredientes escondidos”.

Agenda

O quê. De Banda Para a Arte

Quando. Quinta, das 19h às 22h

Onde. Funarte (rua Januária, 68, Floresta)

Quanto. Gratuito

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