Síndrome gera ‘visões’ como as de ‘Alice no País das Maravilhas’

Problema não é óptico, nem de alucinação e some na vida adulta

iG Minas Gerais | Helene Stapinski |

Psiquiatra. John Todd observou que o equívoco de percepção lembrava as descrições de Lewis Carroll do que ocorria a Alice
FOTO: Disney / Divulgacao
Psiquiatra. John Todd observou que o equívoco de percepção lembrava as descrições de Lewis Carroll do que ocorria a Alice

Nova York, EUA. Poucos meses atrás, minha filha Paulina, 10, sofria de fortes dores de cabeça pouco antes de se deitar. Ela dizia que tudo no quarto parecia muito pequeno. Quando era nova, eu também “via as coisas distantes” – como se tudo no quarto estivesse no lado errado de um telescópio. Os episódios podiam durar de alguns minutos a uma hora, mas passaram conforme eu crescia.

Descobri um nome para o que vinha a ser uma aflição muito rara: síndrome de “Alice no País das Maravilhas”. Os episódios geralmente incluem micropsia (objetos que parecem pequenos) ou macropsia (objetos que parecem grandes). Alguns pacientes percebem partes do próprio corpo como muito grandes ou muito pequenas. Para mim e Paulina, móveis a 30 cm de distância davam a impressão de caber numa casa de bonecas.

O psiquiatra britânico John Todd batizou o distúrbio em 1955, observando que o equívoco de percepção lembrava as descrições de Lewis Carroll do que ocorria a Alice. O problema também é conhecido como “Síndrome de Todd”.

Tinha a sensação de que não era um problema perigoso. Contatei vários neurologistas e aprendi sobre os possíveis gatilhos: infecções, enxaqueca, estresse e remédios, principalmente alguns para tosse.

Epilepsia e derrame foram considerados. Médicos acreditam que Lewis Carroll, que descreveu suas enxaquecas no diário, possa ter sofrido da síndrome.

Cérebro. O problema não é óptico nem de alucinação. É muito provavelmente causado por uma mudança em uma porção do cérebro, possivelmente o lobo parietal, que processa percepções do ambiente. Especialistas a consideram uma espécie de aura, alerta sensorial que, em alguns casos, antecede a enxaqueca. E os médicos confirmaram que ela geralmente some na vida adulta.

Vários neurologistas fizeram exames de ressonância magnética em pacientes, embora assim que a crise tenha passado, geralmente não há sinal de atividade cerebral incomum. Em 2008, a neurologista Sheena Aurora foi a primeira a examinar o cérebro de uma pessoa – uma menina de 12 anos – em meio a um episódio.

A atividade elétrica causava um fluxo sanguíneo anormal nas partes do cérebro que controlam a visão e processam textura, formato e tamanho. “O cérebro de uma pessoa com a síndrome é só um pouquinho diferente”, disse.

Flash

Família. Em seu estudo, a médica neurologista Sheena Aurora pediu uma árvore genealógica mostrando quais parentes tiveram a síndrome, para que pudesse fazer exames genéticos em busca de uma ligação.

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