Experimentalismo de máquinas e pensamentos

“Alexandre”, que tem participação de Céu, é o álbum mais experimental dos recifenses

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Atual. Vicente, Marcelo Machado, em cima de Chiquinho, e Felipe S. compõem o Mombojó hoje
vitor salerno/divulgação
Atual. Vicente, Marcelo Machado, em cima de Chiquinho, e Felipe S. compõem o Mombojó hoje

Há 10 anos tocando juntos, a formação atual do Mombojó fez o que toda banda de garagem faz no início da carreira: foi para o estúdio com vontade de tocar, mas sem ter canções prontas. O que poderia ser um desleixo de Felipe S. (voz e guitarra), Chiquinho (teclado e sampler), Marcelo Machado (guitarra) e Vicente Machado (bateria e sampler), se dissipou em uma diversidade de doses inusitadas de criatividade presentes em “Alexandre” (Slap/Joinha Records, R$ 25 em média), quinto álbum da banda recifense.

Com metade das músicas compostas dentro dos estúdios Rootsans e Das Caverna, em São Paulo e Pernambuco, respectivamente, o Mombojó mostra agora a maior experimentação da carreira. “A ideia era fazer mais música e menos letra. Isso sempre foi nossa raiz e ela parece ter voltado quando começamos a experimentar e gravar sem pretensão. É algo daquele lema de é assim que somos e antes de sermos, éramos”, diz o vocalista Felipe S.

Ainda que o Mombojó não se canse de reinventar barulhos esquisitos em 13 anos de banda, desta vez não há a unidade lírica que “Nadadenovo” (2004) propunha, a reflexão do tempo que marcou “Homem-Espuma” (2010), a mistura melancólica de rock, surf music e ska de “Amigo do Tempo” (2013), ou ainda o clima comemorativo de “11º Aniversário” (2013). E é a falta de um norte que torna o álbum uma confusão mental no primeiro encontro, mas com vigorosas pílulas atômicas que fazem efeito faixa a faixa.

Aliás, é nítido que a coerência estética e a assimilação sonora simplista estão longe da meta dos recifenses, que têm berço musical no manguebeat rebelde de Chico Science. Por isso, as 11 canções do álbum parecem nem conversar entre si, transitando por universos diversos, como se houvesse algum defeito proposital ali. Não por acaso, logo de cara o vocalista Felipe S. admite que há algo fora do lugar em “Rebuliço”, faixa de abertura que mistura batuques de maracatu com teclados lúdicos: “Há um percalço / Há um defeito em mim / Um rebuliço / Algo não soa bem”.

Sob a produção de Homero Basílio e Rodrigo Sanches, o Mombojó usa desde sintetizadores eletrônicos até bolinhas de ping pong em seus arranjos, conseguindo talhar canções que flertam com vocais distorcidos do Gorillaz, a exemplo da balada “Hello”, até o violão manso e solitário ao estilo João Gilberto, que aparece na cadenciada “Hortelã”. “Não há norte ou direção correta a se seguir. Misturamos sentimentos e computadores, guitarras e devaneios. A coerência é um detalhe. A surpresa é o que interessa”, diz Chiquinho, tecladista da banda.

Outras surpresas ficam por conta de “Summer Long”, canção bilíngue que ganhou rimas em inglês da cantora Laetita Sadier, vocalista da banda inglesa Stereolab, uma das maiores influências do Mombojó. Entre outras participações, a cantora Céu confere leveza às guitarras de soul music de “Diz um Leão”, enquanto o baixista Dengue, da Nação Zumbi, reforça as notas graves de “Cuidado, Perigo!”

Com direção de arte de Raul Lima, a capa do disco ainda faz uma fusão entre a essência humana e a computadorizada, apresentando uma colagem repleta de botões, fios, teclados, mesas de som e pedaleiras de guitarra que se confundem a uma cabeça humana e partes do cérebro dispersos no emaranhado eletrônico. Talvez mais uma provocação entre as linhas tênues do real e o robótico, o frágil e o duradouro, o pensamento e a execução da máquina. Ainda que sejam tachados de estranhos e incompreendidos por aí, vale lembrar que o Mombojó emite recados certeiros em frequências nada lineares e que muitas vezes demandam um tempo saudável de digestão.

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