O choque de realismo

iG Minas Gerais |

O que seria o Bem sem a existência do Mal? Não haveria como medir um, nem ter noção de sua presença. O calor existe em contraposição ao frio; a luz emerge da escuridão; o som, do silêncio. Existisse só Bem, não haveria Bem. Estaríamos mergulhados num estado permanente e indiferenciado, portanto imperceptível. O Mal, podemos dizer, é ausência de Bem, e vice-versa. Provavelmente foi quando a serpente (Satã) apresentou a maçã a Eva que se perdeu o estado indiferenciado, sem Bem e Mal. O homem não sabia, apenas vivia num éden. Ganhou a possibilidade de evoluir pelo seu esforço, assim aprender e ter que usar a mente, o suor e as lágrimas, não apenas o “status”. Livre de optar, livre entre opostos, de evoluir por merecimento ou de regredir por culpa. O demônio fez seu papel, permitiu a evolução pelo merecimento, que sem ele não existiria. Deu razão à luta, ao esforço que usa para subir nas hierarquias universais. A definição primordial de Satã: Lúcifer, quer dizer, “portador de luz”, atribuída a ele nas Escrituras. E se ele introduziu a luz, até para o cristão mais fervoroso, pode-se assim imaginar que antes se vivia sem ela. Ele que a portou ou possibilitou enxergar a sua presença? Pois é, na natureza existe algo que é o oposto. A sombra cria o perfil. É isso, apesar de Satã ser correlacionado à escuridão, ele trouxe ao homem a possibilidade de conquistar a luz? Não é por acaso que este primeiro-ministro italiano, Matteo Renzi, de 39 anos, sotaque florentino carregado, escolhido para chefiar o governo italiano, repercutindo com grande sucesso na Europa, pode ser considerado um Lúcifer. Proveniente da esquerda que surgiu dos escombros do Partido Comunista Italiano, Renzi transmite uma ideia de certa falta de maturidade política, de destemor nas palavras, de imediatismo. Mas no mofado ambiente político do Velho Continente, ele é o “oposto” do “status quo”. Um portador de luz num sistema tenebroso, marcado por 70 anos de parlamentarismo obsoleto. Como ocorreu com o surto renovador do Renascimento Italiano, no século XIV, na mesma Florença que deu natal a Maquiavel e Renzi, a força da arte se aberrou no barroco e depois no bizantinismo. Arte que perde espontaneidade e se complica – excesso de arte sem arte, tecnicismo. Assim mesmo a política italiana se esgotou, aberrou o parlamentarismo, alcançou a forma mais bizantina de se exercitar. Renzi parece ter surgido desse esgotamento, e do distanciamento da “natural necessidade da política”. Assiste-se com ele, hoje, a um “extremo” de renovação que aponta para horizontes inimagináveis. Surge do imobilismo, é o desencadeamento de uma reação de opostos. Talvez um que retornou à “simples realidade”, a métodos mais espartanos que atenienses, mais diretos que tergiversantes, mais espontâneos que diplomáticos. Falar sem eufemismos, agir com o objetivo de realizar, e não de agradar. Inimaginável até alguns anos atrás, Matteo Renzi ganhou a confiança de um sistema de formas políticas que experimentou de tudo até espraiar-se, perder ímpeto, esgotar sua energia primeva. Preocupado, mais que com a solução real do problema, em “agradar” a eleitores. Quase como o médico irresponsável que adia a extração de um tumor e deixa o corpo inteiro se infeccionar. Políticos italianos há 70 anos pensam em se reeleger e adotam políticas indolores, anestesiam o paciente/eleitor e não tratam de seus males. Renzi surge agora como reação, fala em remédios amargos, fala com coragem da quebra de paradigmas. Peita aquilo que era tabu. Fala como um ET. Ele também passará de moda, se cansará, provavelmente encontrará, na mesma esquerda que hoje o enxerga como “Messias”, um grave obstáculo. Neste momento injeta na veia a esperança de renovação que parecia ter sido extinta. Faz sonhar. Sonhar numa retomada de crescimento, numa era de meritocracia, no realinhamento de valores “naturais” que se tinham perdido. Fala diferente, sem medo de desagradar. Parece estar portando uma luz.

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