Um sopro, um cisco no olho, um sopro, e nada

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“Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres.” (Manuel Bandeira)
Intervenção sobre fotomontagem do poema
“Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres.” (Manuel Bandeira)

Há 30 anos, no dia 10 de junho de 1984, eu estava em pé diante de uma cova aberta. Coveiros indiferentes despejavam pás de terra sobre o caixão. Em volta, parentes, amigos e curiosos esperavam o ponto final. Ali, e naquele momento, nasceu o poema de homenagem ao pai morto. Magro e duro como ele, Levi, o menor dos Nunes. Qual foi o primeiro verso? Não lembro. Pode ter sido o do coveiro jogando terra: “O coveiro sua e pragueja: antes ele do que eu”, mas acho que não. Talvez tenha sido o primeiro do poema, o que seria óbvio. PRIMEIRA ESTROFE Lembro a sala pequena de nossa casa em Bocaiuva. Cheia de gente. Com meu irmão Wandir, saí para as últimas providências. Wandir sempre me surpreendeu. Tímido, discreto, tem uma força interior que só se destaca nos momentos em que se precisa dele. No resto do tempo, como um felino, espera. “Duas e meia da tarde. 10 de junho de 1984./ Mãos secas. Pés juntos. Algodoais no nariz./ Véu negro sobre o rosto: tímido noivo de vermes./ Rotineira terra roxa sobre o cadáver de cera.” Nem sei se a terra era de fato roxa. Questão de ritmo? Dramaticidade? Talvez. Como todo o poema, saiu de estalo. Aliás, qualquer poema merecedor do título tem ritmo próprio, senão dói no ouvido. SEGUNDA ESTROFE Conversava-se muito, como em todo velório. Parece que os vivos, por medo dos mortos ou da morte, insistem em relembrar, discutir política, futebol, contar piada. Dentro do caixão, Levi, de olhos fechados, esperava, paciente como a eternidade. Decerto não se incomodava com o papo. Decerto estava em outro lugar. Decerto considerava cumprido seu dever entre os vivos. “Vai embora Levi e seus 40 quilos de osso./ Vai embora o enfisema: missão cumprida./ Vão embora pescarias. Cigarros de palha. Tosses./ Revólver na cintura. Carteados. O olho de cobra.” O mais constante eram as tosses. E os cigarros de palha, que fabricava sentado num banquinho do quintal, lenta e sossegadamente. Em seu pequeno diário, com meia dúzia de páginas, anotou em abril: “Larguei de cigarrar”. Construção verbal estranha, lembrando Graciliano Ramos pela economia e pelo uso incomum do vocabulário. TERCEIRA ESTROFE Era magro e aparentemente seco, o pequeno Levi. Filho da típica mistureba racial da pequena classe média do interior, media 1,58 numa família de varapaus, e era bem moreno, numa família que contava um louro entre os irmãos. Seu humor irrompia de repente, brotando do silêncio e da cara fechada. Mas, como todos os pequenos, era duro na queda. “O coveiro sua e pragueja: antes ele do que eu./ Foi tudo muito rápido. Silencioso. Sem queixas./ 1 metro de 58 e nunca confessou nada. Nem a padre./ Nunca pediu nada. Nunca aceitou nada. Nem de Deus.” Família crescida, teimou minha mãe Geralda na mudança para Belo Horizonte. – Pode ir – respondeu ele. E trancou-se. Durante meses, meus tios belo-horizontinos falaram das vantagens da cidade grande. Conforto. Educação. Futuro da molecada de cinco filhos machos. – Podem ir – repetia. – Eu fico. E ficou. Como ficou Geralda, a mãe, e Wandir, o filho que tomou conta da casa e deles até a morte dos dois. QUARTA ESTROFE “Tão pequeno para um orgulho tão grande./ Feroz como todos os pequenos. Duro como diamante./ Até que finalmente tudo passou – e nada./ Que diferença faz? Séculos ou mitos ou segundos:/ grandes ilusões rastejam entre lagartixas.” Sentado no banquinho do quintal, vigiava o tempo passar. Quase não saía de casa. Fazer o quê, na rua? Novo, mantinha na venda a banca de baralho, varando a noite com os amigos. Ninguém ganhava nada. Nem perdia. Nada de jogo sério, como nos fundos do bar Vitória, onde fortunas viraram poeira. Saía, quando saía, para caçar ou pescar. A pé mesmo, que não gostava de luxos. Dois, três, cinco quilômetros na ida, outros tantos na volta. E meia dúzia de lambaris, uma que outra traíra na capanga. Como era bom ficar ali, na beira do rio, ele pitando o cigarrinho de palha, eu vendo a água gorgolejar mansa, horas e horas. QUINTA ESTROFE “E então é verdade: então a vida não passa disto:/ um sopro: um cisco no olho: um sopro: e nada.” Desfaz-se a tensão. Um poema-necrológio de apenas 19 versos secos. Para que mais? Quase tudo de importante estava ali, brilhando como um olho. Às vezes – muitas vezes – se confunde prolixidade com lirismo. Não é preciso tanto. Um poema vale pelo que condensa, sintetiza. Poesia é a linguagem da síntese, do paradoxo, do não dizer dizendo. Por isso é infinitamente mais difícil escrever um bom poema do que um romance, uma novela, um conto. Bons poemas são raros. Bons leitores de poesia são igualmente raros. A poesia é a mais inútil de todas as artes – disseram centenas de vezes. Poesia não é comercial e só vende se o poeta é famoso por outras façanhas mais robustas. ÚLTIMA ESTROFE Como passa o tempo! Escorre entre os dedos, fina areia de infinita praia. Tênue brilho de fantasmas envergonhados. Quem diria, Levi: trinta anos já?!?

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