A ultra violência doce de Lana

Cantora investe em profusão de estilos e tenta fugir da estigma de hitmaker gravando um disco sincero e sofisticado

iG Minas Gerais | jon pareles |

Fora do “mainstream”. Cantora Lana Del Rey tenta fugir dos parâmetros recorrentes da música pop
KURT ISWARIENKO
Fora do “mainstream”. Cantora Lana Del Rey tenta fugir dos parâmetros recorrentes da música pop

Em outubro, antes de começar uma turnê internacional, a compositora Lana Del Rey consultou um vidente. Ela foi instruída a escrever quatro perguntas com antecedência e dormir pensando nelas. Como Del Rey contou durante entrevista em maio em sua casa nesta cidade, a primeira questão da lista era: “Eu tenho lugar neste mundo?”.

Provavelmente, não é o tipo de pergunta que cantores de música pop que vendem milhões fariam quando suas carreiras estão em clara ascensão. Neste ano, Del Rey foi convidada para cantar a assustadora versão de “Once Upon a Dream” para “Malévola”, filme da Disney, e se apresentou em Versalhes na festa pré-casamento de Kanye West e Kim Kardashian.

Porém, dúvidas, arrependimentos, desejos obsessivos e impulsos autodestrutivos costumam estar no centro das músicas e clipes de Del Rey. “Eu espero por você, meu bem, isso é tudo que faço/Você não vem, meu bem, nunca”, ela canta em “Pretty When You Cry”, do seu novo álbum “Ultraviolence” (Polydor/Interscope).

Desde seu surgimento com a música “Video Games” em 2011 e o álbum “Born to Die”, em 2012, Del Rey produziu reações apaixonadamente opostas. Suas canções e videoclipes abordam campos minados culturais, explorando o erotismo, mortalidade, poder, submissão, glamour, fé, iconografia da cultura popular e os significados do sonho americano. Em resenhas e discussões online, ela enfrentou acusações de falta de autenticidade, amadorismo, antifeminismo e maquinação comercial. Entretanto, em grande parte graças ao YouTube, ela também reuniu fãs pelo mundo que amam todos os seus versos.

Sem sombra de dúvida, “Ultraviolence” vai agitar mais as disputas, mas uma coisa que o álbum deve eliminar de imediato é a noção de que Del Rey está somente caçando sucessos. O disco vai mais fundo em sua noção de tempo em câmera lenta, sua mistura de sofisticação retrô e sinceridade. O álbum também se move com elegância entre a dor de cotovelo e o humor maroto, às vezes na mesma música.

A música em “Ultraviolence” a afasta ainda mais do que acontece no mundo pop atual. Enquanto as rádios estão cheias de batidas eletrônicas futuristas dançantes e testemunhos afinados pelo Auto-Tune para gerar autoestima, Del Rey, 28, tomou um caminho contrário, melódico e melancólico. Boa parte de sua música tem sido exuberante e lenta, invocando trilhas sonoras vintage e ecos das décadas de 1950 e 60. A voz soa humana e desprotegida, oferecendo doçura mesmo quando entoa palavrões.

As faixas de “Born do Die” beberam no hip-hop, com samples resmungões e batidas robustas, mas agora, “não gosto muito dessa produção”. A influência do hip-hop já retrocedeu em “Paradise”, o EP que lançou em 2012. E “Ultraviolence” é mais lânguido do que nunca.

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