O saldo da ação colaborativa

O cenário dos coletivos de produção em Minas mudou de feição, mas deixou forjado um importante legado cultural

iG Minas Gerais | Daniel Barbosa |

Show. Realizado pelo coletivo Fórceps, o festival Escambo, em Sabará, recebeu Emicida em sua edição de 2011
Jonathan Santos / Divulgação
Show. Realizado pelo coletivo Fórceps, o festival Escambo, em Sabará, recebeu Emicida em sua edição de 2011

Há não muito tempo, três ou quatro anos atrás, a palavra coletivo resplandecia onipresente na mídia cultural quando o assunto era produção e circulação de eventos artísticos. Surgidos aos borbotões em todo o país a partir de meados da década passada, boa parte deles na esteira da rede Fora do Eixo, os coletivos de produção despontavam como promessa de um novo modelo de gestão cultural e estímulo à criação e circulação. Minas Gerais não fugiu à regra e viu nascer o coletivo Pegada em Belo Horizonte, o Fórceps em Sabará, o Goma em Uberlândia, o Vatos em Divinópolis, o Corrente Cultural em Poços de Caldas, o Peleja em Patos de Minas e tantos outros.  

Mas o tempo passou, o Fora do Eixo se tornou alvo de críticas, enfrentou problemas internos, dissidências, e hoje atua sem o alarde de outrora. E o panorama dos coletivos, base de sustentação da rede, mudou também. Alguns simplesmente acabaram, como o Vatos, outros, pelo contrário, seguem em plena atividade, ainda como Pontos Fora do Eixo, como o Semifusa, de Ribeirão das Neves, alguns restringiram seu foco de atuação e ainda há aqueles que se desligaram da rede, passaram por uma reestruturação e seguem na cena, como o Pegada, que após um hiato de dois anos, volta a realizar, em novembro deste ano, o seu festival, o Transborda. No saldo geral de toda essa movimentação, contudo, resta um legado que é celebrado de forma unânime.

“Saímos do Fora do Eixo, no final de 2011, por falta de autonomia, e ficamos tentando entender se a gente continuaria com o coletivo. Foi cada um para um lado, mas depois a gente viu que pode se reunir por esse auxílio mútuo que sempre teve, sem precisar de uma organização”, afirma Roberta Henriques de Brito sobre a retomada do Pegada. Ela diz que não tem muita notícia de outros coletivos do Estado, com os quais costumava trabalhar em estreita colaboração. Sabe que ainda há uma movimentação nesse sentido em Barbacena, em Ouro Preto, em Ribeirão das Neves. “Não me desvinculei de ninguém, só que não ouço mais falar do que esse pessoal anda fazendo. O Fora do Eixo acabou se focando muito na mídia, na parte da comunicação, então talvez por isso que a gente não ouça muito mais falar em eventos e festivais sendo produzidos”, avalia.

Ela considera, no entanto, que o rescaldo é positivo. “Acredito que esse boom dos coletivos foi fundamental, porque a gente viu que consegue fazer as coisas com menos do que achava que era necessário para fazer. O Fora do Eixo forjou uma nova forma de produzir. Hoje, a gente vive um processo de amadurecimento, mas todo mundo guarda dentro de si essa falta de pudor de fazer as coisas”, aponta.

Fred Berli, do Vatos, diz que o coletivo acabou quando ele recebeu uma proposta profissional que o obrigou a abandonar a coordenação do grupo, responsável pela realização do festival La Onda em Vespasiano. “As ações do Vatos eram muito centralizadas na minha pessoa, fiz a opção de me afastar da coordenação, ser só um colaborador, mas ninguém quis assumir”, diz. “Mas surgiram a partir daí outros grupos, ações de amigos que se aproximaram, que se tornaram agentes da cena cultural de Vespasiano e começaram, a partir do que a gente havia feito, a propor ações, já sem usar o nome Vatos e sem ligação com o Fora do Eixo”, completa, saudando a mudança. “O pessoal aprendeu que tem que se organizar e montar os próprios eventos, aprendeu a sair da letargia e colocar por conta própria a cultura em pauta na cidade. Esse estímulo ao processo, à produção em rede, coletiva, é um resultado concreto da nossa ação aqui na cidade”, aponta.

Surgido em 2007 em Sabará, o Fórceps, realizador do festival Escambo, se mantém ativo e vinculado ao Fora do Eixo, “de uma forma menos participativa”, conforme diz Leo Santiago, e com foco mais restrito. “Reduzimos a amplitude de nossas ações. Vamos começar um projeto focado nas escolas e estamos mantendo o Circuito Metropolitano de Cultura, junto com Ribeirão das Neves, Santa Luzia, Lagoa Santa, Sabará, através do qual debatemos a questão da exclusão no cenário da região metropolitana. Este ano tivemos mais um debate político do que eventos propriamente ditos”, diz Leo, acrescentando que não vive mais o dia a dia do Fora do Eixo e que o contato com outros coletivos do Estado raleou.

Leo, no entanto, faz coro com Roberta acerca dos benefícios que o boom dos coletivos trouxe. “Tem um milhão de possibilidades e cada um vai para o lado que interessa mais, mas é difícil negar que houve uma transformação. Quem participou saiu mudado da coisa. São pessoas que vão continuar no cenário cultural, que vão se inserir no mercado, e ainda restam esses contatos todos, que estão constituídos”, destaca.

Transborda Festival.Orçado em R$ 100 mil (valor captado), o Transborda, que teve edições em 2010 e 2011, volta a acontecer este ano em BH. O coletivo Pegada está em negociação com o Espaço CentoeQuatro para abrigar o evento, que será exclusivamente focado na música, mas com espaço para palestras e oficinas, além dos shows. A programação ainda será definida

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