Bem longe da bola

Projeto Offside Brazil retrata país durante Mundial, sem bola e sem estádio

iG Minas Gerais | VINICIUS LACERDA |

© Leo Caobelli / Garapa
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Ao digitar o link www.offsidebrazil.tumblr.com no seu navegador aparecerão fotografias que, num primeiro momento, aparentam não seguir uma temática linear. Há brasileiros em situações cotidianas, como no ponto à espera de um ônibus, uma pastora de alguma igreja executando algum tipo de ritual enquanto, um corpo estendido no chão, encharcado de sangue, uma multidão de pessoas sentadas em cadeiras de praia, uma bem próxima da outra.

 

Mas basta acessar as informações contidas no ícone do Offside Brazil – meio escondido, na canto esquerdo da parte superior do site – para ver que se trata de um trabalho idealizado pela maior agência de fotojornalismo do mundo, a Magnum, criada por Cartier Bresson (1908-2004) e Robert Capa (1913-1954), em parceria com o Instituto Moreira Salles (IMS). A ideia é fotografar “o Brasil” durante o maior torneio de futebol através de lentes que passam bem longe dos campos.

“Estava em uma feira em Paris e encontrei com Lorenza Bravetta (editora-chefe da Magnum) e conversamos sobre o embrionário projeto que eles queriam fazer no Brasil durante o campeonato. Logo no rascunho ficou decidido que não haveria sentido fotografar os jogos durante a Copa do Mundo porque haveria uma quantidade imensa de repórteres da imprensa mundial que se dedicariam a isso,” conta o coordenador de fotografia contemporânea do IMS, Thyago Nogueira. “Concluímos que registraríamos a movimentação paralela da sociedade brasileira no decorrer do torneio e como ela se conecta, ou não, com o evento”.

Resolvido o escopo da cobertura, sobrava a difícil tarefa de escolher os fotógrafos para compor o time. Difícil porque tanto a Magnum quanto o IMS poderiam indicar inúmeros profissionais aptos para a função. Por isso, foram necessários critérios para seleção. “Concordamos que não seria uma cobertura muito grande, que a equipe teria que ser formada por jovens fotógrafos que utilizassem de novas linguagens e que tivessem um trabalho autoral circulando”, afirma Nogueira.

Dentro da premissa, foram escolhidos os estrangeiros Susan Meiselas, Jonas Bendiksen, David Alan Harvey, Alex Majoli e Zoe Strauss, os brasileiros Barbara Wagner, Pio Figueiroa, Breno Rotatori, Andre Vieira, além dos coletivos Mídia Ninja e Garapa. “Entre os brasileiros conseguimos colocar dois grupos depois de contar a Lorenza sobre o rico trabalho que eles têm feito no país”, relata Nogueira.

Assim, cada um dos fotógrafos dedicado à sua área de expertise tem registrado diariamente o contexto brasileiro por meio das relações das pessoas com outras, com a religião, com o poder público, com a jJustiça e até mesmo com a Copa, em diferentes locais do país.

Quem organiza tudo isso e edita as milhares de fotos registradas é a editora de arte contratada pela Magnum, Daria Birang, que pela primeira vez desempenha a função em um projeto como esse.

Daria considera o projeto “um organismo livre” que deve ser alimentado com fatos surpreendentes e com personagens fantásticos. Fatores que se desenvolveram desde o primeiro dia da cobertura. “Tudo começou a pegar ‘corpo’ depois que os fotógrafos se firmaram em suas próprias propostas. Desde então, o resultado tem se desenvolvido dia após dia e fico eufórica com as maravilhosas imagens que me são enviadas”, opina.

Nesta semana, porém, as imagens de Pio Figueiroa, que vem acompanhando uma policial feminina de 26 anos, responsável pela área da perícia, em São Paulo, chocaram a editora. “Ela (a personagem) investiga várias mortes violentas, o que gera cenas fortes. Mas esse projeto é sobre o que está acontecendo no Brasil e, tristemente, isso acontece”, comenta.

Na verdade, cenas como essa e muitas outras compõem “o Brasil que não está na copa”. Umas mais efêmeras, outras mais chocantes. E essa diversidade solidifica, ao olhos de Nogueira, o projeto, além de contribuir para a carreira dos fotógrafos. “Eles estão vivendo em uma espécie de laboratório aberto. Isso é uma experiência significativa para esse profissionais. Além disso, as fotos e informações sobre a carreira deles são publicadas nos boletins da Magnum, que tem uma abrangência mundial significativa. Tudo isso gera uma baita repercussão para eles”, comenta.

Para Rafael Vilela, fotógrafo representante do coletivo Mídia Ninja, a chancela da agência internacional é importante, assim como os moldes da narrativa sob a qual as fotos estão sendo construídas. Elas indicam uma aposta, segundo ele, em linguagens menos usuais. “Essa vinda (da Magnum) incentiva o debate sobre a realidade brasileira por meio da fotografia, que vai além do fotojornalismo tradicional”, comenta.

Heterogeneidade. Fotógrafos brasileiros e estrangeiros registram cenários do Brasil durante a Copa do Mundo. O assunto varia de acordo com a proposta de cada um dos profissionais, mas se nota uma predominância de cenários que refletem a pobreza, a arquitetura e as manifestações nas ruas

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