Três décadas da arte de Venosa

iG Minas Gerais | Giselle Ferreira |

Retrospectiva de Ângelo Venosa nas galerias Genesco Murta e Arlinda Corrêa Lima marca seus 30 anos de carreira
PINA ANGELO/DIVULGAÇÃO
Retrospectiva de Ângelo Venosa nas galerias Genesco Murta e Arlinda Corrêa Lima marca seus 30 anos de carreira
Manter a natureza das coisas numa zona de pouca clareza. Desmontar e remontar para recriar. Provocar incômodos em vez de interpretações. Explicar pra confundir e confundir pra esclarecer. Assim o escultor Ângelo Venosa, 60, define a sua própria maneira de fazer arte: linguagens intercaladas para reinventar objetos e modos de ver, sem necessariamente ambicionar chegar a lugar ou coisa alguma. Arte pela arte. Ou como diria ele, “o lugar da arte e da poesia não é explicar o mundo ou se referir ao mundo. É um lugar em si”.    O público mineiro terá, a partir da próxima sexta (11), nas galerias do Palácio das Artes, a chance inédita de visitar em casa um grande número da obra do artista paulistano. A exposição marca os 30 anos de carreira de Venosa, que inclui passagens pelas bienais de Veneza, São Paulo e Mercosul.    Incomodado com o grau de assertividade e de verborragia a que chegam as interpretações da arte contemporânea, Ângelo mistura cabeças de boi com materiais plásticos e não espera que seu público entenda o recado. O percurso que a exposição sugere, inclusive, não guarda nenhuma didática. Não há cronologia, mas contaminação. O fio que conduz a sequência e define a proximidade das obras – diferentes em cada espaço pelo qual a mostra passa – diz da essência de cada uma delas. “Eu fico um pouco cansado com o excesso de significado. Queria que dissessem menos e deixassem um espaço para o espanto. A obra de arte dá certo quando ela irrompe algo novo no mundo. Se ela incomoda de alguma maneira, o valor vem dali”, afirma o escultor, lembrando da ocasião em que afirmou que se quisesse dizer alguma coisa com os seus trabalhos não faria esculturas, mas escreveria um livro.    Não é de se espantar, portanto, que Venosa tenha mais fascínio pelos processos do que pelos fins. Em suas falas, ele frequentemente traça paralelos entre a vocação artística e a científica – o que justifica dizendo que a ciência e a arte são feitas de meios, coisas entre vazios, processos e feituras, até que algo irrompe. “O momento em que algo coagula nos dois campos também é da mesma natureza. Onde não havia nada passa a haver alguma coisa”, observa. Acrílico, madeira, vidro, sal, aço corten, tecido, gesso e ossadas reproduzem suas inúmeras camadas. Raras figurações remetem a formas orgânicas. Tudo se mistura e nada se explica.  “Me lembro que uma vez estava imprimindo um desenho. A impressora deu um problema e começou a imprimir em códigos. Guardei isso e sempre uso isso como exemplo – letra e desenho são a mesma coisa, mas em algum momento as linguagens ali se cruzaram. É um exemplo para dizer que isso tudo que a gente vê do mundo material é só uma das percepções entre todas as possíveis. O que me interessa são essas outras aparências”, conta o artista, que nem considera o início na pintura como parte de sua obra. “É como se você perguntasse a um índio sobre o princípio das coisas”, diz, forçando a memória para remontar aos tempos em que uma tela rasgada pelo seu próprio descontentamento com a arte acabou se transformando no seu primeiro objeto tridimensional.   E se na orla do Leme você já tiver deparado com uma carcaça de baleia encalhada, saiba que o monumento, de seis metros e 12 toneladas, não foi pensado como figura alguma.   Ângelo Venosa   Palácio das Artes (av. Afonso Pena, 1.537, centro, 3236-7400). De 11/7 a 24/8. Entrada franca. 

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