Vazio da perda e dor da revolta

Corpos das duas vítimas do desabamento foram sepultados nesta sexta, na capital e em Lagoa Santa

iG Minas Gerais | Luiza Muzzi |

Despedida. Cerca de cem pessoas, inclusive passageiros da linha, foram ao sepultamento de Hanna, condutora do ônibus
leo fontes
Despedida. Cerca de cem pessoas, inclusive passageiros da linha, foram ao sepultamento de Hanna, condutora do ônibus

Se o dia nesta sexta foi verde e amarelo para a maioria dos brasileiros, para centenas de amigos e familiares de Hanna Cristina Santos, 25, e Charlys Frederico Moreira do Nascimento, 25, a sexta-feira não teve cor. Durante a madrugada, parentes das duas vítimas do acidente na avenida Pedro I acompanharam o drama do encaminhamento e reconhecimento dos corpos no Instituto Médico-Legal (IML) e os procedimentos burocráticos para confirmação dos óbitos. Depois, manhã e tarde foram de muita tristeza e comoção, em velórios lotados. Às 17h, os dois foram enterrados, deixando pais, irmãos, companheiros, filhos e amigos com o vazio da perda e a dor da revolta.

Hanna, a motorista do ônibus da linha S70 que foi parcialmente atingido na queda do viaduto, foi sepultada no cemitério Bosque da Esperança, na região Norte da capital, como heroína. “Ela me pediu para ser motorista para carregar e proteger vidas, porque queria ser igual a mim. Mas ela foi melhor. Acabou conseguindo frear o ônibus e evitar que muitas outras vidas se fossem”, diz o pai de Hanna, o motorista aposentado José Antônio dos Santos, 61. Emocionado, ele conta que soube do acidente pelo ex-genro e dirigiu de Florestal, na região metropolitana, onde atualmente mora, à capital, ainda com a esperança de encontrar a filha em algum hospital. Pelo rádio, porém, veio a notícia do óbito. “Aí eu desliguei. Porque não queria ouvir o nome dela. É muito triste receber uma notícia dessas de filho da gente”. José Antônio conta que no instante em que ele e a mulher souberam da morte, a mãe de Hanna, a dona de casa Analina Soares Santos, 52, tentou pular do carro em movimento. Ele estacionou e então conseguiu acalmá-la, para continuarem viagem até a capital. “O pior é que acabaram com a nossa vida por causa de uma irresponsabilidade”, desabafou o pai. Bastante abalada, Analina disse que a filha deu o sangue pela profissão e morreu fazendo o que mais gostava. “Apesar de toda a tristeza, tenho muito orgulho dela, que salvou a vida dos passageiros, da minha nora e da minha neta”. No fim da tarde desta sexta, o casal preferiu não seguir o cortejo de cerca de cem pessoas que acompanhou o corpo da motorista até o local do enterro. Ex-marido de Hanna e pai da única filha dela, de 5 anos, o músico Enderson Eliziano, 33, diz que passou a noite com a filha no hospital. Ela ficou em observação, mas foi liberada pela manhã. Antes de a menina receber alta, Eliziano deu a notícia da morte da mãe. “Ela disse que o Papai do Céu estava de mal dela, levando todo mundo que ela gostava”, contou. A menina perdeu o bisavô há alguns anos. Outra vítima.A alguns quilômetros dali, em Lagoa Santa, na região metropolitana, cerca de 200 pessoas acompanharam o enterro do servente Charlys do Nascimento, que dirigia o Uno esmagado pela estrutura. De manhã, a mulher dele, a doméstica Cristilene Pereira Sena, 32, acompanhou a liberação do corpo no IML. Ela conta que aquele não era o trajeto habitual do marido. “Ontem (nesta quinta) o nosso encontro era para comprar um carro novo. Ele pediu ao patrão para sair mais cedo e veio de Lagoa Santa para me buscar no serviço, na Pampulha. Marcou comigo às 15h. Mas, quando liguei, às 15h15, ele já não atendia mais”. Charlys e Cristilene moravam juntos há sete anos, com os dois filhos dela. “Ele era como um pai para eles. Ali é a minha rotina de segunda-feira a sábado, não a dele. Agora vou ter que enfrentar por muito tempo essa lembrança ao passar por lá”.

Reclamação No velório de Hanna Santos, familiares disseram não ter recebido apoio da prefeitura nem da Cowan – apenas uma coroa de flores da empresa. O ônibus que Hanna dirigia era da família, objeto de trabalho da irmã, do irmão e da cunhada dela, e sustento de seis pessoas. Em nota, a Cowan afirmou que “mantém-se solidária e oferecendo total apoio às vítimas e aos familiares após o acidente”. Já a prefeitura informou que dois secretários estiveram no velório e que um serviço de assistência psicossocial está à disposição.

Apelo a Dilma Revoltado com a morte do filho, Charlys Nascimento, o cuidador de idosos Juarez Moreira de Melo, 52, fez um apelo à Presidência. “Dilma (Rousseff) já veio para dar o pontapé na bola. Por que não vem para ver a dor de um pai que perde um filho em uma obra mal-feita?”, questionou. “Ele era humilde, trabalhador, e morreu por erro de quem? O culpado foi quem? Tinha necessidade de fazer (o viaduto) na correria? E se eu pedir resposta, vai ter alguém para me dar?”, desabafou a mulher do servente, Cristilene Pereira Sena. 

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