Brasileiros recorrem a rituais e superstições para os jogos

Até Nelson Rodrigues tinha um nome para os gols improváveis e inexplicáveis, o gol espírita

iG Minas Gerais | Fernanda Santos |

Só com elas. O torcedor Rodrigo Sant’ana um dia sonhou que pedras dariam sorte ao time e agora só vai aos estádios com elas no bolso
arizilda Cruppe/The New York Times
Só com elas. O torcedor Rodrigo Sant’ana um dia sonhou que pedras dariam sorte ao time e agora só vai aos estádios com elas no bolso

SALVADOR. Existe um ditado nesta cidade de grande sincretismo religioso que diz o seguinte: se macumba ganhasse jogo, o campeonato baiano terminaria empatado. Mesmo assim, isso nunca impediu que os torcedores daqui recorressem a rituais, magias, orações ou superstições para dar uma mãozinha ao clube do coração ou à seleção brasileira.  

Quer seja vestir os mesmos calções enquanto o time estiver vencendo ou deixar uma galinha sacrificada e outras oferendas numa esquina para alguma deidade africana, torcedores ardorosos de Salvador e de outros lugares acreditam que o resultado das partidas pode ser de alguma forma controlado por eles.

“Escrevo o nome do time adversário num pedaço de papel, ponho o pedaço dentro de um vidro e deixo o vidro dentro do congelador”, afirmou Heraldo Souza da Silva, empresário, explicando sua estratégia de “congelar o oponente”, geralmente aplicado ao seu time local, o Esporte Clube Vitória, mas adaptado para servir ao Brasil na Copa do Mundo.

A sorte é o 12º jogador em campo, e não faltam histórias sobre times claramente mais fracos fazendo gols contra clubes superiores. Pense na vitória do time amador dos Estados Unidos por um a zero contra a Inglaterra na Copa do Mundo de 1950, também no Brasil, um feito impressionante do esquadrão norte-americano contra uma das melhores equipes do mundo.

Nelson Rodrigues, dramaturgo brasileiro, tinha um nome para os gols improváveis e inexplicáveis, o gol espírita, pois somente poderiam acontecer por intervenção divina.

Torcedores do Cruzeiro Esporte Clube, time de primeira linha do montanhoso Estado das Minas Gerais, dizem que o time não tinha chances no começo do ano contra o San Lorenzo de Almagro, oponente argentino nas quartas de final da famosa Copa Libertadores, porque o papa Francisco está entre os fãs de carteirinha do time. Hoje em dia costuma-se dizer que o papa tem rezado pela Argentina, seu país natal e potência do futebol.

Bermuda preta para todos jogos Salvador. O inglês Simon Johnson não costumava ir aos jogos no seu país natal, pois os hooligans provocavam tumultos nos estádios. Quando se mudou para Salvador em 1993, a primeira partida que viu foi do Vitória, e a equipe foi à final do Brasileiro daquele ano. Johnson usa a mesma bermuda preta daquele dia a cada vez que vai ao estádio – foi lavada tantas vezes que o preto virou cinza. “Meu calção é fundamental”, diz. No Rio, José Ribeiro, rapper, fez jejum até o fim do amistoso contra o Panamá em 3 de junho, acreditando que “de barriga vazia, é mais fácil canalizar energia”. O Brasil ganhou de 4 a 0.

Pedrinhas da sorte e proteção direto do céu Salvador. O torcedor Roberto Sant’Ana leva nos bolsos as mesmas três pedras que pegou anos atrás, depois de ter sonhado que, se levasse pedras a um estádio, seu time venceria. “Quando o Brasil enfrentou a França nas quartas de final da Copa da Alemanha, em 2006, “o segurança me disse que eu não poderia entrar com as pedras, e o Brasil perdeu”. “O futebol é um jogo, como tudo na vida, e embora nunca se saiba o que vai acontecer quando a bola começa a rolar, não faz mal pedir um pouquinho de proteção dos céus”, diz Augusto César, sacerdote de candomblé. No fim das contas, César admitiu que “mesmo quando seu santo é o árbitro, na maioria das vezes, o time melhor vence”.

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