Vou de bike

iG Minas Gerais |

acir galvao
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Rodrigo vai para o trabalho de bicicleta. E não importa se o céu está azul ou se a chuva não dá trégua, se é dia de manifestação na praça Sete ou se um caminhão estragou na Pedro I, se a venda de carros novos bateu outro recorde ou se o Move está funcionando em sua plena capacidade, ele sempre leva 30 minutos no trajeto de casa para o trampo. Eliminado o estresse com o trânsito e abastecido das endorfinas liberadas no caminho, Rodrigo é uma máquina insuportável de bom humor e produtividade.  Bebel é a sensação quando chega na escola com seu capacete vermelho, na garupa da bicicleta pilotada pelo pai. Todos os coleguinhas do 2º período trocariam fácil o carrão último modelo que para em fila dupla na porta do colégio, ajuda a encher a rua Jacuí de forma insuportável nos horários de pico, é responsável pela emissão de 90% dos poluentes que deixam o ar de Belo Horizonte um tanto quanto descabido pela chance de percorrer as ruas do bairro Floresta percebendo as cores e cheiros, sentindo o vento no rosto, vendo o mundo rodar debaixo dos pés, transformando cada ida para a aula em uma pequena aventura diária.  Roberto só sabe ir de um lugar para o outro de bicicleta. É assim desde menino. Até para visitar a mãe em Sabará, dispensa qualquer outro meio de transporte. Não se acovarda diante de nenhum trajeto mais rude, mas também não se sente menos ciclista quando resolve desmontar e empurrar a magrela em uma subida intransponível. O corpo e o coração fortes camuflam com competência seus quase 60 anos. O que ele gastaria com gasolina, estacionamento, revisão, IPVA, taxa de licenciamento, troca de óleo, flanelinha, lava-jato está se transformando em um barracão supimpa para a filha que planeja se casar no ano que vem. Thiago usa o pedal como um ato político, a ideologia que escolheu para deixar a vida com algum sentido. Antes mesmo da ONU, entendeu cedo que a bicicleta é o transporte ecologicamente mais sustentável do planeta. Defende cada quilômetro a mais de ciclovia como se fosse um pedaço de seu próprio rincão e fez festa quando o projeto de bikes compartilhadas finalmente se instalou no seu quintal. Cada vez que alguém usa as ladeiras da cidade como desculpa ou justificativa, joga na cara as 130 mil viagens diárias que já são feitas na capital, apesar de tanta gente do contra.  Michele é uma ciclista bem mequetrefe, do tipo que pendura a bicicleta no suporte do carro para levá-la a um lugar seguro e que não apresente grandes ousadias. Na primeira vez que percorreu os 18 km da lagoa da Pampulha, depois de mais de 20 anos sem pedalar, ganhou uma dorzinha persistente nas pernas como reconhecimento. Na primeira vez que se aventurou em uma trilha de verdade, quase morreu sem fôlego num dos muitos morros da ida para depois quase matar seu amigo profissa numa das muitas curvas da volta. Mas há quase dois anos, é em cima de uma bicicleta que ela se sente com superpoderes. É pedalando que resolve suas várias questões, que cria diálogos esclarecedores, que tem a cabecinha de melão encharcada de ideias, que encontra assunto para colunas futuras, que dá tamanho certo para as coisas cotidianas, que exercita sua capacidade de identificar pequenas felicidades.  Pode ser que neste tempo também tenha aumentado sua capacidade cardiorrespiratória, tenha ganhado mais disposição e deixado pressão e o nível de triglicéris em equilíbrio. Pode ser que tenha impedido que o bumbum despencasse mais que o razoável para seus 41 anos. Pode ser que sua presença semanal tenha ajudado a dar relevância a ciclovias bem planejadas e em abundância. Pode ser que seu interesse tenha feito com que a bicicleta e seus arredores tenham sempre espaço neste jornal. Mas aí já é benefício demais para uma encarnação só. Acho que dá para viver com isso.

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