Tragédia sem resposta

iG Minas Gerais |

Ainda ontem a cidade estava em festa. Os problemas haviam sido parcialmente esquecidos. “Respirávamos” futebol. Vivíamos intensamente a Copa do Mundo com tudo aquilo que ela nos proporcionou. O Mineirão era um misto de alegria e beleza, e Confins, quem diria, funcionava bem. Os protestos não vingaram, e os estrangeiros pareciam nossos amigos de infância, espalhados pela Savassi. O trânsito fluía melhor que nos dias comuns, e até o Move (sistema de transporte rápido) atendia bem a demanda temporária. A cidade-sede mineira, sabe-se lá como, conseguia disfarçar bem suas imperfeições. Mais que isso, mostrava o seu melhor.  Mas foi no meio da tarde que Belo Horizonte se entristeceu. A cidade, seus moradores e gente do país afora se uniram em uma indignação coletiva diante de uma tragédia que poderia, sim, ter sido evitada. Pelo menos duas pessoas morreram e mais de 20 ficaram feridas no desabamento de um viaduto na avenida Pedro I, na região de Venda Nova. A queda ocorreu quando operários retiravam as escoras da estrutura, que seria inaugurada em breve. Dois caminhões, um carro e um ônibus foram atingidos pelas toneladas de concreto. Desespero difícil de explicar.  Muitos veículos trafegavam pela Pedro I no horário do acidente. O minuto exato da queda do viaduto foi registrado pelas câmeras que monitoram o trânsito da cidade. O mundo inteiro viu. As imagens se espalharam rapidamente pela internet. A cada minuto, a indignação ganha novos adeptos. É que essa tragédia traz à tona falhas e denota incompetência. Por sorte, pura sorte, não foi ainda pior. Muitas outras pessoas poderiam ter morrido. Uma estrutura desse tipo não desmorona se estiver bem construída. Nenhuma obra com esse perfil desaba, de repente, do nada, se estiver adequada. A Cowan, construtora responsável pelo empreendimento, terá muito a explicar, assim como a Sudecap, assim como a prefeitura... O prefeito Marcio Lacerda chegou ao local do acidente pouco depois das 18h. Foi recebido por moradores da região, que empunhavam cartazes com dizeres como “vergonha”. O gestor disse lamentar o ocorrido. Falou em apuração das causas. Decretou luto. A população esperava mais. O viaduto faz parte do complexo das obras criadas para o Move. Vale lembrar que o Ministério Público investiga indícios de superfaturamento. Vale ressaltar que outro viaduto, na mesma avenida, foi interditado em fevereiro por risco de queda.  Nem o prefeito, nem os responsáveis pela obra conheceram Hanna Cristina dos Santos. Era ela quem dirigia o ônibus que se chocou com o concreto. A jovem de 25 anos não sobreviveu. Também vimos isso nas imagens que circularam na internet. A Hanna era a mãe da Clara – uma garotinha de 5 anos que também estava no coletivo e se feriu. Os amigos dizem que era alegre e batalhadora. Até o fechamento desta coluna, não soube quem era o motorista do Uno e nem mesmo se estava sozinho. O carro continuava coberto pelos escombros.  Para mim e uma multidão de brasileiros apaixonados por futebol, a Copa perdeu o brilho. O jogo do Brasil hoje perdeu a importância. Eu e uma multidão de brasileiros quereremos respostas e punição. Pela Hanna, pela vítima ainda não identificada, pelos feridos, por suas famílias. Por todos nós, cansados de tanta bandalheira.

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