O futebol se parece com a religião em muitos aspectos, como na fé

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DUKE
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A Copa do Mundo, que ora se realiza no Brasil, bem como outros grandes eventos futebolísticos, assume características próprias das religiões. Ora, se bem repararmos, o futebol, para muita gente, preenche as características religiosas: fé, entusiasmo, calor, exaltação, um campo de força e uma permanente aposta de que seu time vai triunfar. A espetacularização da abertura dos jogos lembra uma grande celebração religiosa, carregada de reverência e seguida de ruidoso aplauso. E há a bola, que funciona como uma espécie de hóstia que é comungada por todos. No futebol, como na religião (tomemos a católica como referência), existem os 11 apóstolos (Judas não conta), que são os 11 jogadores, enviados para representar o país; os santos referenciais, como Pelé, Beckenbauer e outros; existe, outrossim, um papa, que é o presidente da Fifa etc. O desenrolar de uma partida suscita fenômenos que ocorrem também na religião: gritam-se jaculatórias (bordões), chora-se de comoção, fazem-se rezas, promessas divinas, figas e outros símbolos da diversidade religiosa. Santos fortes, orixás e energias do axé são evocados e invocados. Existe até uma Santa Inquisição, o corpo técnico, cuja missão é zelar pela ortodoxia, dirimir conflitos de interpretação e eventualmente processar e punir jogadores e até times inteiros. Como nas religiões e igrejas, existem ordens e congregações religiosas; assim, há as torcidas organizadas, e elas têm seus ritos, seus cânticos e sua ética. Há famílias inteiras que escolhem morar perto da sede do time, que funciona como uma verdadeira igreja, onde os fiéis se encontram e comungam seus sonhos. Tatuam o corpo com os símbolos do clube; a criança nem acaba de nascer e já a porta da incubadora vem ornada com os símbolos do time – quer dizer, recebe já aí o batismo que jamais deve ser traído. Considero razoável entender a fé como a formulou o grande filósofo e matemático cristão Blaise Pascal: uma aposta. Aposta-se que Deus existe, tem tudo a ganhar; se de fato não existe, não tem nada a perder. Então, é melhor apostar que exista. O torcedor vive de apostas (cuja expressão maior é a loteria esportiva) de que a sorte beneficiará o time ou de que algo, no último minuto do jogo, tudo pode virar e, por fim, fazer ganhar, por mais forte que seja o adversário. Como na religião há pessoas referenciais, da mesma forma vale para os craques. Na religião, existe a doença do fanatismo, da intolerância e da violência contra outra expressão religiosa; o mesmo ocorre no futebol: grupos de uma equipe agridem outros do time concorrente, ônibus são apedrejados, e podem ocorrer verdadeiros crimes, de todos conhecidos, vindos de torcidas organizadas e fanáticos que podem ferir e até matar adversários de um time concorrente. Para muitos, o futebol virou uma cosmovisão, uma forma de entender o mundo e de dar sentido à vida. Alguns são sofredores quando seu time perde e ficam eufóricos quando ganha. Eu, pessoalmente, aprecio o futebol por uma simples razão: portador de quatro próteses nos joelhos e nos fêmures, jamais teria condições de fazer aquelas corridas e de levar aqueles trancos e quedas. Fazem o que jamais poderia fazer, sem cair aos pedaços. Há jogadores que são geniais artistas de criatividade e habilidade. Não sem razão, o maior filósofo do século XX, Martin Heidegger, não perdia nenhum jogo importante, pois via no futebol a concretização de sua filosofia: a contenda entre o ser e o ente, se enfrentando, se negando, se compondo e constituindo o imprevisível jogo da vida, que todos jogamos.

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