A escritora que quer descomplicar os livros do nosso maior escritor

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DUKE
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Há duas semanas, fiz referência ao “assassinato” do qual teria sido vítima o nosso genial Joaquim Maria Machado de Assis, ou, simplesmente, Machado de Assis. O crime foi cometido pela escritora Patrícia Engel Secco. Contra o inigualável mestre e contra nossa cultura. O assunto deu um susto em alguns dos meus amigos, que também me concedem a enorme honra de ser leitores do que escrevo neste espaço. Assustaram-se com o que eu disse, mas que vou detalhar só agora. O assunto continua me desafiando (coisa de somenos, perdoe-me o vocábulo, Patrícia…), pois ele desafia, sobretudo, gente importante – do naipe, por exemplo, dentre inúmeros outros, da escritora, ensaísta e ex-presidente da Academia Brasileira de Letras Nélida Piñon. É o seguinte, para quem não acompanhou a inaudita façanha de simplificar (ou descomplicar) alguns dos nossos clássicos: a escritora Patrícia Engel Secco, utilizando-se de um projeto chamado “Instituto Brasil Leitor”, aprovado pelo Ministério da Cultura e baseado na lei de incentivos fiscais (Lei Rouanet), obteve financiamento para a publicação “simplificada”, segundo disse, do conto (ou novela?) de Machado de Assis “O Alienista”. Em breve, estarão no mercado (se já não estão) 600 mil exemplares do livro, que serão distribuídos aos que não leem ou, como tentou esclarecer ela, “às pessoas simples” (como se ele, Machado, não o fosse), que jamais imaginaram ou souberam quem é o escritor, como “o meu eletricista e o porteiro do meu prédio. Quero aproximar os clássicos dessas pessoas, e não distribuir livros em escolas para crianças”. Trata-se, concluiu Patrícia, de uma tarefa destinada a “outro Brasil”, mas não especificou, claramente, que Brasil seria esse. Patrícia Engel Secco afirma, também, que nossos jovens não gostam de ler Machado – uma afirmação parecida com a primeira, que diz respeito ao grau de instrução, hoje, dos nossos eletricistas e porteiros. Os jovens não gostam, segundo ela, “porque as construções são muito longas, e eu simplifico isso”. Que presunção, hein! Sua argumentação – ela não percebe isso – é essencialmente discriminatória. “Essa mulher”, diz Nélida, “quer que nós tenhamos essa discussão como se ela estivesse propondo a ressurreição eterna de Machado de Assis, como se ele dependesse somente dela”. Na realidade, porém, não sei se seria só isso. É possível que, por trás desse projeto, haja uma segunda intenção – a de faturar um bom dinheirinho... Os brasileiros leem pouco, mas isso não autoriza ninguém a adulterar uma obra (qualquer que seja sua qualidade) sob a alegação de que, assim, lerão mais. Mexer na forma de uma obra, que talvez seja o instante máximo da criação, é crime contra sua integridade. Agora, mexer na obra de Machado de Assis é crime de lesa-pátria! A iniciativa da escritora, que, conforme tentou explicar, defende uma linguagem “mais palatável” para captar os jovens leitores, vem ao encontro, também, com certeza, do que tem afirmado o líder do PT na Câmara Federal, José Guimarães, a respeito da regulamentação (leia-se censura) da nossa mídia. É esse pessoal que deseja implantar no país o Plano Nacional de Participação Social, defendido com ardor pelo ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho. Tudo isso faz parte de uma mesma matriz fascista, que se aproveitou agora de um hiato criado pela Copa do Mundo para mostrar suas asinhas, que, obviamente, não são de nenhum anjo… São possuídas!

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