‘Funeral em pé’ faz encenação do falecido quando estava vivo

Relembrar-se da pessoa como ela era é o objetivo da nova modalidade de velório

iG Minas Gerais | Campbell Robertson e Frances Robles |

Novidade. Boxeador Christopher River foi colocado em um canto de um ringue para que sua família e amigos lembrassem de como ele viveu
Ricardo Arduengo
Novidade. Boxeador Christopher River foi colocado em um canto de um ringue para que sua família e amigos lembrassem de como ele viveu

Nova Orleans, EUA. Quando a casa funerária Charbonnet-Labat fez o funeral de Miriam Burbank, em 12 de junho, seu proprietário, Louis Charbonnet, não imaginava quão grande seria a repercussão. A mulher havia morrido aos 53 anos e passou o velório sentada em frente a uma mesa, cercada de miniaturas de capacetes do time New Orleans Saints, com uma lata de cerveja Busch em uma das mãos, e um cigarro mentolado entre os dedos, da mesma maneira que havia passado boa parte de seus dias quando estava viva.

O funeral de Burbank foi o segundo “funeral em pé” o organizado por Charbonnet, e o terceiro em Nova Orleans nos últimos dois anos. O fenômeno de montar um cenário da vida durante o velório, por outro lado, teve início em Porto Rico em 2008, quatro anos antes do primeiro funeral desse tipo em Nova Orleans, com uma vítima de assassinato de 24 anos cujo velório foi realizado na sala da família, com o corpo preso por fios à parede. O funeral de Angel Luis Pantojas – chamado de “muerto parao”, ou morto em pé – se tornou uma verdadeira sensação. Este ano, o corpo do boxeador Christopher Rivera foi colocado em pé em um ringue, e uma idosa foi colocada em sua cadeira de balanço.

A diretora da Funerária Marín, em San Juan, foi responsável por organizar os funerais. “Isso está fazendo um sucesso danado”, afirmou Elsie Rodríguez, vice-presidente da funerária. “As pessoas pedem todo o tipo de funeral que você pode imaginar. Até o momento só realizamos seis, porque as pessoas que fizeram os pedidos ainda não morreram”.

Rodríguez comentou que a ideia foi dada pelo próprio Pantojas. Sua família contou que, desde que ele foi ao velório do pai aos 6 anos de idade, Pantojas dizia aos parentes que gostaria de ser colocado em pé. “Não se trata de diversão, nem de um evento engraçado; a família está passando por muita dor”, afirmou Rodríguez. Com esse tipo de velório, “a família literalmente sofre menos, porque vê seu ente querido de uma maneira que costumava deixá-los felizes – eles o veem como se ainda estivesse vivo”.

CONTROVÉRSIA. No começo, algumas pessoas em Porto Rico eram contrárias a esse tipo de funeral – que custa a partir de US$ 1.700 – uma oposição que Rodríguez atribui à “inveja profissional”. Os legisladores porto-riquenhos realizaram audiências nas quais o Departamento de Saúde e outros agentes funerários deram suas opiniões.

“Achei que isso levaria a uma concorrência pelo funeral mais exótico”, afirmou Jorge Lugo, presidente da Associação de Casas Funerárias de Porto Rico. “Essas pessoas – não todas elas, mas algumas das que fizeram esse tipo de funeral – pertenciam ao submundo e tiveram uma vida de dinheiro rápido. Tive a impressão que as consequências poderiam ser negativas, com esse tipo de gente fazendo esses funerais”.

Apesar disso, organizações que representam os agentes funerários dizem que esse tipo de velório ainda é raro. Rodríguez, de San Juan, contou que teve até que recusar alguns pedidos que achou desrespeitosos, ou que “não faziam sentido”. Ela não aceita, por exemplos, a realização de funerais com os mortos vestidos apenas com roupas de banho, concluiu.

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