Café (s) com leite

iG Minas Gerais |

Mais do que uma chapa puro-sangue do PSDB para a disputa da Presidência da República, a escolha do senador Aloysio Nunes Ferreira (SP) para ser o vice na candidatura de Aécio Neves lembra uma “coincidência histórica”: será uma disputa com duas chapas “café com leite”. De um lado, Aécio e Nunes, de outro, Dilma e Temer. Não, não estou dizendo que a eleição vai se polarizar nessas duas candidaturas, apenas aponto a coincidência de dois cabeças de chapa mineiros com dois vices paulistas. De forma bem simplificada, a política do café com leite foi o revezamento, entre 1894 e 1930, de um presidente indicado pelas forças políticas de São Paulo (produtor de café) e de outro indicado por Minas Gerais (produtor de leite). Era uma aliança benéfica a ambos: os paulistas dominavam a precária e agrária economia do país, enquanto Minas era mais populosa e possuía o maior número de representantes. A parceria ruiu por uma série de fatores, mas talvez o mais significativo tenha sido Minas ser desprestigiada nas decisões políticas. Voltando para o atual período histórico, as duas chapas possuem significados diferentes. Dilma é mineira, mas construiu carreira no Rio Grande do Sul. Mais do que isso, é indicada por Lula – o que, em outros Estados, sobretudo no Nordeste, constitui cartão de visitas mais robusto do que a origem da petista. Temer é de São Paulo, mas é um detalhe. É quem dava e dá as cartas no PMDB. Logo, o fator regional se dissolve; no máximo ele consegue alguma capilaridade no interior paulista. Já na chapa tucana, o peso da naturalidade é grande: a união de um mineiro com um paulista ajuda, mas também pode atrapalhar. Aécio e outros tucanos justificam a escolha de Aloysio Nunes pelo número de votos na última eleição para o Senado (11 milhões) e pela ligação com os prefeitos de São Paulo. O paulista também teria a função de fazer seus conterrâneos do partido trabalharem pelo mineiro. No entanto, no Nordeste, local onde a dupla Lula-Dilma possui grande adesão, pode soar estranho um mineiro com um paulista. Sem contar que a região ofereceu um filho para a disputa, Eduardo Campos (PSB), ex-governador de Pernambuco. Não que a possível escolha de um nordestino por Aécio lhe garantisse mais votos no Nordeste, região em que ele precisa crescer mais, mas poderia ajudá-lo a ser mais conhecido por lá. A escolha de um coordenador de campanha “da região” e uma série de viagens para lá tentam minimizar isso. No cálculo eleitoral, o tucano preferiu pacificar a disputa no maior colégio eleitoral do país e correr atrás nos outros. Por isso as alianças com candidatos de partidos da base de Dilma nos Estados, como no Ceará, onde o PSDB estará no palanque do PMDB, contra o PT. É a tentativa do PSDB de comer pelas beiradas nas outras regiões e vencer em Minas e em São Paulo. Daqui a três meses, saberemos se a tática do “puro-sangue café com leite” deu certo. Humberto Santos escreve interinamente a coluna de Murilo Rocha

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