Daquele tempo que não existe mais

Novo longa de Wes Anderson ve nceu o grande prêmio do júri em Berlim

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Paleta. Anderson usa seu visual e encenação peculiares para construir uma época em vias de desaparecer
MARTIN SCALI/20TH CENTURY FOX/BE
Paleta. Anderson usa seu visual e encenação peculiares para construir uma época em vias de desaparecer

A Segunda Guerra Mundial é possivelmente o tópico mais explorado durante os cento e poucos anos do cinema. E por mais que ela seja um marco histórico cujas repercussões talvez nunca deixem de ser sentidas, é bastante difícil encontrar um ângulo inédito que convide o público a enxergá-la sob um novo ponto de vista.

Em “O Grande Hotel Budapeste”, Wes Anderson usa o fato de ser quase impossível associar sua narrativa cartunesca e seu visual calculadamente simétrico ao universo sombrio e austero da guerra para realizar essa façanha. Sem nunca citar o conflito diretamente, e ambientado no país ficcional de Zubrowka, o filme é uma fábula sobre um mundo que desapareceu com a guerra.

Ou, nas palavras do roteiro, sobre os “fracos vislumbres de civilização restantes neste matadouro bárbaro que já foi conhecido como humanidade”. Repetida várias vezes durante o longa, essa expressão é a definição perfeita do protagonista M. Gustave (Ralph Fiennes), concierge do hotel do título. Após tomar o jovem mensageiro Zero (Tony Revolori) como seu pupilo e amigo, ele é acusado do assassinato de uma de suas velhas clientes-amantes e precisa da ajuda do garoto para provar sua inocência.

Já velho, Zero conta a história de Gustave para um escritor (Jude Law), e a chave para entender “O Grande Hotel Budapeste” está em uma frase que ele diz sobre o amigo. “O mundo dele já tinha desaparecido antes mesmo de Gustave nascer. Mas, eu devo dizer, ele certamente sustentava a ilusão com uma graça maravilhosa”.

E assim como a ‘performance’ de Gustave, o estilo e o visual característicos de Anderson são a abordagem perfeita para reconstruir a teatralidade dessa “bela época” em vias de extinção. A paleta de cores fortes e quentes do diretor é substituída aqui por azuis e laranjas pastéis, quase desbotados, além de roxos e lilás, reforçando a ideia de um mundo que se desintegra e os tempos sombrios que se aproximam.

Essa construção é a essência do longa. Em suas várias camadas – a história encenada por Gustave é narrada por Zero e se torna um livro, que é lido por uma garota –, “O Grande Hotel Budapeste” é um longa metalinguístico sobre mundos reconstruídos por meio de narrativa.

Mas longe de fazer do filme uma obra pedante ou acadêmica, essa metalinguagem é usada pelo diretor para tornar a produção uma obra divertidíssima. Assim como nos longas da Pixar, Anderson aproveita a liberdade permitida por seu tom cartunesco para passear por vários arquétipos narrativos – a fuga da prisão, a perseguição ao vilão, o macguffin hitchcockiano e o assassinato agathachristiano – dando a eles um novo significado cômico ao enxergar o clichê que representam.

Toda essa engrenagem técnica só ganha vida graças à universalidade do elemento humano da história. Se “Moonrise Kingdom” era sobre o primeiro amor, “O Grande Hotel Budapeste” é sobre uma amizade forte o bastante para sobreviver a guerras, mortes e ao próprio tempo. O hotel dá nome ao filme porque é a materialização física dessa amizade, com sua grandiosidade e ostentação retrógradas representando os valores e a elegância de uma época legados por Gustave a Zero.

No meio disso tudo, e de um enorme elenco em participações pequenas, está Ralph Fiennes. Na que é provavelmente sua melhor performance desde “A Lista de Schindler”, o ator dá o tom do filme ao conseguir aliar o humor peculiar de Anderson à integridade e coerência moral de seu protagonista.

Nenhuma cena deixa isso mais claro que aquela em que Gustave é informado de que está sendo preso por assassinato. Simples e sem diálogo, a reação de Fiennes é talvez o momento mais engraçado de um filme em 2014 e encarna com perfeição a atitude de Wes Anderson diante do mundo que seu longa reconstrói e subverte.

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