Novo plano para o audiovisual

Com programa Brasil de Todas as Telas, governo federal anuncia investimento em cinema e TV de R$ 1,2 bilhão

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Crescimento. Filmes como “Até que a Sorte nos Separe 2”, maior bilheteria nacional do ano, têm estimulado economia da indústria
GLOBO FILMES
Crescimento. Filmes como “Até que a Sorte nos Separe 2”, maior bilheteria nacional do ano, têm estimulado economia da indústria

O objetivo é megalômano: transformar o Brasil em um dos cinco maiores centros produtores e programadores de conteúdos audiovisuais do mundo. Mas os recursos não ficam atrás: R$ 1,2 bilhão. Esse é o investimento feito pelo governo federal no programa Brasil de Todas as Telas, anunciado pela presidente Dilma Rousseff numa coletiva em Brasília, ontem à tarde.

Formulado com base no Plano de Diretrizes e Metas para o Audiovisual, o programa será dividido entre linhas de financiamento já existentes e outras que serão implantadas com o investimento (veja a arte abaixo). “Este fundo é o maior já destinado ao audiovisual, sobretudo sobre o conjunto de iniciativas que abrangem os elos da cadeia, desde o roteiro até a modernização do parque exibidor e do incentivo à pesquisa. Do tamanho compatível ao talento e à criatividade dos nossos produtores audiovisuais”, afirmou Dilma na coletiva.

Os R$ 325 milhões atualmente distribuídos em editais e chamadas de produção e difusão de conteúdo pela Ancine, por exemplo, receberão um novo aporte de R$ 375 milhões, com o objetivo de financiar um total de 300 novos longas-metragem e 400 seriados. “Hoje temos muita gente boa no mercado que não tem como levar suas ideias à frente. Outra coisa que vai ajudar muito é o fato da Ancine abrir os canais financeiros de parceria para agentes sem operação estruturada a partir dos mecanismos de financiamento público ao audiovisual, ou seja, programadoras, instituições de ensino e governos estaduais vão ter canais de financiamento que hoje não têm. Isso vai fazer diferença também”, explicou a ministra da Cultura, Marta Suplicy.

Uma das novidades mais aguardadas pelos agentes do mercado é o Sistema de Suporte Financeiro Automático. São R$ 70 milhões que serão disponibilizados automaticamente para empresas de cinema e TV com um retrospecto bem-sucedido de comercialização de obras, com o objetivo de dar maior agilidade aos seus negócios e garantir seus investimentos no audiovisual. “O investimento e o foco maior do Brasil de Todas as Telas é na produção de conteúdos”, defendeu o diretor-presidente da Ancine, Manoel Rangel.

“É algo que a gente sempre reclamou. Um reconhecimento com ênfase no trabalho da empresa, e não um prêmio por um filme específico”, avalia o cineasta mineiro Helvécio Ratton. A comparação feita por ele refere-se ao Prêmio Adicional de Renda (PAR), que tem um mecanismo semelhante ao Suporte Automático, mas reconhece apenas o bom desempenho de um único filme.

“O PAR financia apenas o desenvolvimento do roteiro de um novo projeto. Esse novo suporte automático permite financiar a integralidade ou grande parte da produção”, explica o diretor mineiro Guilherme Fiúza. Os critérios para a seleção dessas empresas, porém, não foram divulgados.

Outra novidade bem recebida foram as três novas linhas financeiras – Núcleos Criativos, Desenvolvimento de Projetos e Laboratórios de Desenvolvimento – que vão tentar resolver outro problema do audiovisual brasileiro. São R$ 61 milhões, somados a R$ 33 milhões já em processo de seleção, que focalizam o desenvolvimento de projetos e formatos de obras audiovisuais, estimulando a criação de parcerias entre empresas e profissionais de criação e comercialização.

“Esse abrir do leque para novos roteiros e formatos é onde fica minha esperança para produtos diferentes e um aumento da diversidade”, espera Ratton. Ele alude à principal crítica feita à produção cinematográfica brasileira atual. O governo celebra o bom market share atingido, mas ele se refere quase exclusivamente a um único gênero: a comédia.

O último destaque entre as novidades é um investimento feito em parceria com o Ministério da Educação, com inscrições abertas desde a semana passada. São 5.000 bolsas para 20 cursos técnico-profissionalizantes – para áreas como figurino, cenografia e iluminação – realizados em 12 capitais do país.

“Sou um grande defensor de que o cinema brasileiro precisa mais de técnicos do que de realizadores”, argumenta Fiúza. Ele se preocupa, no entanto, se haverá produção local para absorver essa mão de obra em cidades como Belo Horizonte, uma das capitais que contará com os cursos.

“Estamos cansados de formar profissionais aqui e eles irem para o Rio ou São Paulo porque não têm trabalho”, desabafa o diretor. Para ele e Ratton, o motivo disso é um só: enquanto o governo federal continua a investir no audiovisual brasileiro, não existe nenhuma contrapartida estadual ou .municipal por aqui.

“Nosso único programa é o Filme em Minas que, na verdade, são recursos federais porque é renúncia de imposto de renda”, afirma Ratton. “Pernambuco tem um edital anual de R$ 11 milhões. Minas tem um bianual de R$ 4,5 milhões para longa, curta, memória, publicação, incentivo a produções de outros Estados aqui. Falo isso como um ganhador do prêmio: é morfina para um paciente terminal não morrer”, atesta Fiúza

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