Cambistas agem livremente em Fortaleza antes de Brasil e Colômbia

Ingressos para setores distintos são vendidos por R$ 2.000, e negociantes aceitam até depósito em conta e cartão de crédito

iG Minas Gerais | DANIEL OTTONI |

Cambistas atraem interessados com muita simpatia e sem medo da polícia
ALEX DE JESUS/OTEMPO
Cambistas atraem interessados com muita simpatia e sem medo da polícia

É Copa do Mundo, mas em alguns momentos chegamos a duvidar desta certeza. A ação de cambistas poucos dias antes do jogo entre Brasil e Colômbia, sexta-feira, na Arena Castelão, acontece como em qualquer outro dia que antecede uma partida decisiva.

Apesar da proibição e da expectativa de um cerco maior a eles, a oferta, venda e compra de bilhetes acontece nas ruas de Fortaleza. Pelo menos ali, a presença do padrão FIFA ficou de fora. Não foi a maior entidade do futebol que os fez, pelo menos desta vez, deixar de agir.

A grande procura instiga os aproveitadores, que se reúnem em diferentes pontos da cidade para tentar lucrar o valor mais alto possível. Um deles é a Central de Eventos, local destinado para a troca de bilhetes já comprados pela internet. Muitos vão ali também para tentar a sorte e encontrar algum à venda. Na saída, o que não faltam são oportunistas, que agem com simpatia e camaradagem, como se ali estivesse um amigo de muitos anos. Tudo feito com muita tranquilidade, sem nenhum tipo de inibição ou abordagem.

Os olhos parecem brilhar a cada oportunidade. A oferta para o jogo do Brasil saía por R$ 2.000,00 para as categorias 2 e 4. Mesmo com as áreas tendo sido vendidas, inicialmente, pelo site da FIFA, por valores bem diferentes, o que vale para os cambistas é dinheiro na mão e uma entrada para quem se interessar.

Segundo um deles, ingresso da categoria 1, em local privilegiado do estádio, estava saindo, no site da entidade, por R$ 660. Um lucro de mais de 200%, imaginando que um valor ainda mais baixo foi pago para as categorias disponíveis.

“Você quer quantos? Quer 10, tem. Quer 15, tem também. Não tem dinheiro, pode ser transferência em conta, amigo. Até maquininha de cartão a gente tem, viu?”, divulga um deles, que faz questão de fornecer o número do telefone para posterior trocas de mensagens. O código 98 denuncia que o cambista tem relação com outro estado, no caso o Maranhão.

Oferta atrás de oferta

Segundos após a reportagem receber oferta de R$ 2.000, um carro estacionou e o preço já ganhou acréscimo de R$ 200. Parece que, de acordo com o perfil do cliente, o valor muda.

Além de vender, elas também compram, se a oportunidade lhes for conveniente.

Não foram poucos os veículos que pararam atrás de algo que lhe interessasse. Qualquer um que saía de mãos abandando do Centro de Eventos, logo era abordado com perguntas como ‘e aí, como foi lá?’. A negativa logo gerava negociação.

Cerca de seis ou sete elementos foram flagrados. O telefone de um deles, inclusive, não parava um só instante.

Por coincidência, um dos clientes que chegou para comprar, já conhecia um dos cambistas. Há poucos dias, o torcedor chegou a vender um dos seus ingressos sobrando para o maranhense. A relação recente logo deu início a uma conversa ainda mais animada.

Outra opção

A Avenida Beira-Mar, ponto tradicional da cidade, famoso por reunir hotéis e turistas de várias localidades, é outro local preferidos dos cambistas. Tão logo a noite cai, é para lá que eles vão atrás de gringos com o bolso cheio de dinheiro.

“Muitos colombianos estão chegando sem ingresso. Qual deles ali que esperava que a seleção chegaria nas quartas de final? Quase nenhum. A hora de tentar lucrar é agora”, lembrou um deles.

No dia do jogo, a tendência é que a Central de Eventos se torne um comércio ilegal e ao ar livre de ingressos, já que é de lá que saem vários ônibus com destino ao Castelão.

Até aqui, na Copa do Mundo, cerca de 150 cambistas já foram presos com ingressos (originais e falsos), além de dinheiro. “Tem nêgo que não sabe trabalhar. Tem que deixar tudo separado, pra não dar zebra. Se você me perguntar se o que eu faço é justo, eu digo que sim”, justifica o que parece ser o líder do bando.

Para a final da Copa do Mundo, no Rio de Janeiro, foi informado que ingressos já estão sendo vendidos por cambistas pelo preço de R$ 10.000.

Conectados

Para ter acesso aos bilhetes, muitos recorrem à internet. Um programa que faz usuário ‘furar fila’ é um dos preferidos dos cambistas, que logo são informados da disponibilidade, no horário que for. Madrugadas são perdidas em busca de bilhetes. E ai de quem desconfiar de que o comércio é de tíquetes falsos. “Aqui a gente não faz isso não. Eu lhe garanto, te dou número de telefone e o que mais você quiser”, esclarece.

As redes sociais também não ficaram de fora deste contexto. Ingressos eram oferecidos a quantias alarmantes, como R$ 6.000,00. O desespero e a paixão falaram alto e muitos caíram na tentação de pagar um preço alarmante para um jogo de futebol. O ‘investimento’ pode valer a pena, mas dependerá da seleção de Felipão para o valor ser recompensado.