Fronteira entre arte e política

Encontro entre o Coletivo EmpreZa, de Goiás, e o Nós, Temporários, de BH, no Rio, gera criações com ativismo

iG Minas Gerais | Carlos Andrei Siquara |

Participação. Nós, Temporários, grupo de BH, levou ao Museu de Arte do Rio, provocações sobre os espaços institucionais da arte, refletindo também sobre o acesso à cultura
Nos temporarios
Participação. Nós, Temporários, grupo de BH, levou ao Museu de Arte do Rio, provocações sobre os espaços institucionais da arte, refletindo também sobre o acesso à cultura

A proposta de artistas convidados contaminarem as propostas do Grupo EmpreZa, atualmente em residência no Museu de Arte do Rio (MAR), e vice-versa, teve como resultado uma diversidade de propostas baseadas tanto na linguagem da performance quanto nas estratégias contemporâneas de ativismo. Isso pode ser percebido, por exemplo, por meio do encontro entre os performers do EmpreZa e o coletivo Nós, Temporários, representados ali pela dupla Bruno Figueiredo e Priscila Amoni.

Para ele ainda que os anfitriões não se coloquem na defesa de bandeiras nem se declarem ativistas, a maneira como questionam as fronteiras da arte revela um caráter indiscutivelmente político do que propõem. Ponto esse considerado uma característica em comum com o que produzem.

“Eles tencionam muito o papel do museu, provocando algumas relações até o limite. Isso, ao meu ver, é uma postura muito próxima do ativismo. Nós, da mesma forma, também estamos questionando até que ponto o museu é o melhor espaço de acesso e fomento à arte. Também estamos interessados em indagar se um trabalho precisa estar dentro de um museu para ser entendido como arte”, diz o fotógrafo.

Durante os dez dias de convivência com o coletivo de Goiás, ele afirma que essa perspectiva norteou as atividades, como a instalação em que se lê a frase “Mar Para Peixe Grande”, além da ocupação da fachada do prédio com a bandeira com os dizeres “Unfair Players. Fifa. Police. Ourselves” e da criação de um linha de montagem de coquetel molotov com água da baía de Guanabara, durante o serão performático, promovido lá na última sexta-feira.

“Nós não podíamos deixar de ignorar todas as questões em torno da construção do Museu de Arte do Rio, na região que está passando por um processo de revitalização, que é a zona portuária. Essa ação brinca com essa ideia de pensar para que serve um museu e sobre a sua função social”, acrescenta Bruno Figueiredo.

Paulo Angelini, integrante do coletivo EmpreZa, observa ter sido muito interessante a abertura do museu para esse processo que leva em conta uma revisão das limitações e perspectivas da instituição. Nesse percurso, no entanto, ele pondera que não é papel dos grupos ensinar algo ao museu, mas provocar uma reflexão que atinge a todos em diferente níveis.

“A postura do MAR de se abrir para a experimentação é algo muito legal e é uma coisa que aqui demorou muito para acontecer. Essa postura libertária e investigativa defendida pelo artista é importante para fazer o museu perceber que serão necessárias adaptações capazes de permitir uma circulação melhor da criação artística”, reflete Paulo Angelini.

Mais do que afirmar o desejo do artista em levar o seu trabalho à última potência, para Angelini, a experiência também foi relevante para os participantes entenderem a necessidade de amadurecer o diálogo com as instituições.

“O grupo quando defende a sua presença nesse espaço, questionando limites, também se coloca como alvo de debate. Acho que é importante notarmos no que ele amadureceu”, conclui.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave