O fim do transe moderado

iG Minas Gerais |

Sarney não irá mais se candidatar. Como farão os 600 mil eleitores do Amapá – ou mesmo os maranhenses – sem a presença do senhor de bigode na urna eletrônica neste ano? Sair da política? “Não”, respondeu: “a política só tem porta de entrada”. Passaram governos, presidentes, crises internas e externas, moedas foram criadas e extintas, o Brasil foi parlamentarista, amargou uma ditadura, voltou ao presidencialismo e Sarney firme, surfando sempre. José Ribamar é um vocacionado. Há outro nome na história do país que tenha passado 60 anos ininterruptos ocupando cargos públicos – e de destaque nacional? Nem José Bonifácio, nem Getúlio Vargas, nem dom Pedro II, que, coroado em 1831, sofreu o golpe republicano 58 anos depois. O Brasil contemporâneo tem no maranhense um símbolo, é uma trajetória histórica e outra biográfica que se imbricam. Alguns destaques interessantes da ficha: quando se elegeu pela primeira vez deputado federal, no distante 1955, seu partido era o PSD do presidente que chegaria ao Catete no ano seguinte, JK. Em 1965, venceu a disputa pelo governo do Maranhão com votação expressiva. Ainda era do PSD, mas, como o regime militar implantara o bipartidarismo, preferiu a Arena ao MDB. Na sigla governista dos militares foi ficando, já como senador por seu Estado natal. Chegou a presidir a Arena em 1979. Mas, já no começo da década de 80, sentiu um cheiro novo no ar e rompeu com o regime. Já no MDB, como representante moderado que era (sempre sendo), foi escolhido para compor a chapa com Tancredo. Talvez sua presença tenha sido essencial para a vitória no Colégio Eleitoral. O destino pregou uma das maiores peças ao país em abril 1985, e a República caiu no colo do predestinado. O resto da história quase todo mundo acompanhou. Depois de lutar contra a hiperinflação, pôr na rua os fiscais da Sunab (ligue 199, lembra?), trocar os ministros da Fazenda com a mesma velocidade com que se esgotavam seus planos artificiais, depois de anunciar a moratória em 1987, Sarney estacionou sua carreira no Amapá – que inventou para, nele, se eleger senador, sempre pelo PMDB (claro). Em 2009, em uma das tantas vezes que presidiu o Senado, ele viveu sua pior crise pessoal. O país se cansara de Sarney, avatar da velha política, casuística e adesista. Foi Pedro Simon, em um discurso memorável da tribuna, quem pediu a renúncia do correligionário, que, ao contrário de Getúlio, estava “saindo da história para cair na vida”. Sarney aguentou o tranco incrivelmente. Quem conseguiu governar democraticamente o país após 25 anos de ditadura militar e a morte repentina do presidente eleito não seria derrubado por uma dúzia de denúncias. Agora, pediu para sair. Porque quer, não porque alguém mandou. Poder é isso. As imagens impactantes do discurso de sua posse no governo maranhense foram captadas por Glauber Rocha. O curta “Maranhão 66” foi descartado como peça de propaganda. Mas aquelas cenas foram aproveitadas depois em “Terra em Transe”. Nenhuma coincidência ou alegoria para retratar tal personagem seria mais propícia.

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