Fobia de dentistas num mundo de desdentados

iG Minas Gerais |

Dentes são coisas que merecem mais atenção do que damos a eles. Para começar, colocaria a dor-de-dente, como uma das três piores que conheço. E a estética?Apesar de adorar a espontaneidade de um sorriso banguela, num adulto, e as fotos de crianças em fase de troca de dentição, sem dúvida um sorriso " Kolinos " conta muitos pontos. Se quisermos dar uma volta na história sabemos que morder com caninos bem aquilatados, sempre foi uma vantagem evolutiva.

Dilacerar uma presa exige uma dentição em bom estado. Enfim, dente é tão precioso que deu origem a um profissional formado e pós-graduado para nos ajudar a manter nossa boca ágil para falar, sorrir, mastigar, beijar e cheirar bem. Por isso hoje resolvi homenagear os dentistas, ou odontólogos em geral. Heróis corajosos na árdua função de nos permitir exibir nossos brancos e simpáticos dentes. Ou reimplantá-los, recuperá-los, ou no mínimo fazendo próteses (e aquele abraço aos dedicados protéticos, artistas em emoldurar nossos sorrisos). Mas tenho que confessar que morro de medo de dentistas! Quem sabe se por experiência traumática pós estresse, quando aos 7 anos, ainda nos primórdios da moderna arte, uma simpática dentista, ao ministrar numa imensa agulha em seringa de vidro, bateu o cotovelo na cadeira, teve aquele choque terrível e sem querer traspassou gengiva e bochecha, entrou em pânico e entrou consultório adentro em busca do esposo. Lógico que vi estrelas e uma dor que só o inusitado da cena, seria capaz de explicar. Imagine, então, na época do boticão, do dentista prático (e olha que muitos eram mestres mesmo sem formação acadêmica)? Arrancar dente na época era tratamento. Me lembro de uma tia e seu simpático e murcho sorriso, banguela e feliz, escondendo com as mãos ou lenço seu largo riso fruto de um bom humor incrível. Chupava carne, frutas, quase mastigava com a gengiva. Contava com detalhes as extrações dolorosas na sua pequena cidade do interior. Boticão para os mais novos era, algo um pouco melhor que um alicate. E o que dizer do famoso barulho do fatídico "motorzinho", para mim, um sádico som da tortura que me esperava. Mãos suando, coração disparado, enjoo, tonteira, falta de ar, sem contar a fatídica sala de espera. Pior ainda se uma criança estava na cadeira, os berros e choros, aqueciam o terror que me aguardava. E quando os aparelhos tocavam um nervo profundo, equivalia a uma agulha finíssima penetrando o crânio, e uma onda de frio percorrendo todo meu corpo. E da-lhe aspirador chiando, cuspindo sangue, engolindo estranhos sabores.

Eis que fui convidado por uma faculdade para falar sobre "Fobia de dentista". Sou pós-graduado e sei que o que diferencia medo e fobia é que no primeiro a gente enfrenta, no segundo evitamos ou fugimos.Confesso que sempre fugi de dentista e como há (caros dentistas me confirmem se é verdade) uma lenda que diz: quanto mais morenos e negros melhor é a dentição, enquanto os nórdicos e eslavos brancos, tem graves problemas dentários. Passei muito tempo agradecendo em meio a bisavós italianos, alemães, portugueses, um que era quase afro-descendente e de quem herdei minha morenice e, quem sabe,também bons dentes. Obrigado bisavô Feliciano!

Por tudo isso, não é incomum que quadros de pânico e fobias possam acontecer nas cadeiras de dentistas. E até pequenos desmaios ocorram e isso as vezes põe em pânico os odontólogos. É que com um estresse tão grande, sintomas físicos como relatei, queda da pressão arterial, hipoglicemia, podem ocorrer. Fiquem calmos, peçam que o cliente respire fundo, dê um suco,relaxem. Afinal aproximadamente um a cada seis pacientes tendem a tal fobia num mundo que os desdentados somam dezenas de milhões, há que melhorar o aspecto social e acessibilidade a uma cadeira de dentista, antes de humilhar os medrosos e fóbicos, que são duplamente sofredores: de dor-dente e dor de medo!

Esta coluna é dedicada aos primos odontólogos Fabrício, Bruno e meu afilhado Leandro, filhos do Edson Cláudio e Elaine, que tem me ajudado nesta batalha. E de forma especial à minha nova dentista Luiza Boechat da Matta.

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