“Tabela Periódica Musical”

Professora Claudia Cimbleris lança na próxima quarta tabela pioneira para composição em múltiplos instrumentos

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Didática.Claudia Cimbleris compilou um trabalho de quase 30 anos com sua Tabela, que oferece os requisitos básicos para a composiçao em 36 instrumentos
Ana Cimbleris
Didática.Claudia Cimbleris compilou um trabalho de quase 30 anos com sua Tabela, que oferece os requisitos básicos para a composiçao em 36 instrumentos

Considerada uma das melhores professoras de música não só de Minas, mas de todo o Brasil, a compositora Claudia Cimbleris aprendeu como ensinar de forma inusitada. “Foram os maus professores que me deram o subsídio para ser uma boa professora”, afirma. Para ela, o poder de todo mestre está no conhecimento que possui. “E existem muitos que ensinam, mas não entregam o ouro que eles detêm. Não te dão o caminho das pedras e, até você conseguir encontrar, muita gente se perde. Tudo que eu quis na minha vida inteira foi entregar esse ouro”, explica.

Esse desejo tem seu ápice na próxima quarta-feira, com o lançamento oficial da Tabela Cimbleris de Instrumentação na Sala Juvenal Dias do Palácio das Artes. Projeto inédito em todo o mundo, a publicação fornece a todo instrumentista com um conhecimento mínimo em escrita musical as características e limites fundamentais para se compor em qualquer instrumento.

Cimbleris explica a utilidade da Tabela, que será distribuída gratuitamente em 14 pontos da capital (veja box), com um exemplo. Se um contrabaixista estiver em um grupo com clarinete e quiser transcrever sua composição para o instrumento, ele precisaria ler uma série de livros que, no Brasil, “ou não são bons, ou não são acessíveis”. O que a publicação da compositora faz é colocar todas essas obras ao acesso do compositor, extraindo delas tudo de que ele precisa para trabalhar. “É a síntese da síntese. As pessoas têm comparado à Tabela Periódica. Se ela não existisse, o estudo da química seria um caos”, argumenta.

Para quem ainda não entendeu o pioneirismo da iniciativa, nem o todo-poderoso Google conta com um guia tão prático e funcional. “Pesquisei antes, e nem na internet existe um conteúdo tão didático, confiável e fácil – em português ou inglês”, aponta Cimbleris.

E didático é a palavra-chave da Tabela, um tabloide de quatro páginas dividido por cores entre os cinco naipes musicais – Madeiras, Saxofones, Metais, Percussão e Cordas – num total de 36 instrumentos. “A forma simples de Claudia abordar a extensão e as características de cada instrumento facilita a leitura e o entendimento aos jovens estudantes, mas sua precisão e seu conceito serão uma magnífica fonte de consulta para os mais exigentes profissionais da música”, pontifica o músico Toninho Horta no prefácio da publicação.

Segundo Cimbleris, a harmonia fina entre esse tom simples e coloquial e a perfeita correção das informações foi o maior desafio e o maior objetivo da obra – capaz de atender, assim, do músico amador ao maestro. “Maestros são como médicos que, no exercício da profissão, vão esquecendo as outras áreas da profissão. A Tabela serve como uma cola para eles”, brinca a professora.

Ausências. Uma das grandes idiossincrasias da publicação é a ausência do piano e do violão entre os instrumentos listados. A explicação de Cimbleris para isso é tão simples quanto a própria Tabela. “Eu conseguiria falar em poucas palavras sobre o piano e, ainda assim, as pessoas não conseguiriam escrever para ele. E o violão é mais difícil porque não tem uma lógica mental – ou a pessoa tem que saber tocar ou raciocinar muito”, justifica.

Tamanha clareza sobre o escopo e a linguagem da Tabela não nasceram do dia para a noite. Cimbleris, que começou a estudar piano aos 6 anos e se formou em composição e regência pela UFMG, elaborou uma primeira versão da publicação, há quase 30 anos, para um curso no I Seminário Brasileiro de Música Instrumental, realizado em Ouro Preto em 1986.

Toninho Horta, que participava da organização, teve acesso ao material por meio do irmão, Paulinho Horta, responsável pelas publicações do evento. “Ele me perguntou se podia reproduzir, e eu disse claro! Desde então, ela vem sendo usada e espalhada meio clandestinamente”, recorda a professora.

Cimbleris continuou a ministrar cursos de composição musical por todo o país e manteve uma cópia da Tabela em um cartaz na parede de sua casa. Com a chegada de uma certa idade, ela começou a pensar no legado que deixaria para a música brasileira. “Um dia, olhei para a Tabela e pensei ‘é isso. Essa é minha semente, a árvore que eu vou plantar’”, relata.

Com a ajuda da filha Maíra Cimbleris, PhD em composição pela Louisiana State University (EUA), elas revisaram os erros de redação e inscreveram o projeto no Fundo Municipal de Cultura. O resultado, com design de Márcia Larica, representa para Claudia Cimbleris a síntese de seu trabalho como artista e professora.

“O estudo da música não tem que ser pedante. Árduo tudo é, mas não tem que ser chato ou difícil. Para mim, não faz sentido ensinar uma coisa que ninguém vai entender. Seja na área de orquestração, trilha sonora, o que for, quero que as pessoas se superem. Quero entregar o ouro”, propõe a professora.

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