Eleitor ‘desabafava’ na cédula

Antes da urna eletrônica, muita gente usava o papel para xingar e mandar recados a candidatos

iG Minas Gerais | Isabella Lacerda |

Referência. Votação eletrônica, implantada em 1996, deixou processo mais rápido e seguro no Brasil
Tiago Queiroz/AE
Referência. Votação eletrônica, implantada em 1996, deixou processo mais rápido e seguro no Brasil

Considerado referência mundial pelo sistema de votação eletrônica e prestes a concluir a segunda geração da tecnologia com a votação biométrica, o Brasil tem em seu histórico de eleições casos bastante curiosos. Muitos deles nem constam na lembrança dos mais jovens – 23,5% do eleitorado brasileiro têm 34 anos ou menos – que não conheceram a cédula de papel.

Abolido há menos de duas décadas, o papel colocado na urna reservava verdadeiras surpresas aos mesários. Por não ser informatizada, a votação no papel permitia de tudo um pouco, de protestos e xingamentos a elogios aos candidatos.

Em 1988, o Rio de Janeiro, terceiro maior colégio eleitoral do país, fez de um macaco o terceiro mais votado na corrida pela prefeitura. Quatrocentos mil eleitores apostaram no chimpanzé Tião, fruto de uma brincadeira de um grupo de humoristas. O animal perdeu para Marcello Alencar, político morto recentemente, que acabou sendo eleito com 1,3 milhão de votos (31%). A soma de votos brancos chegou a 14,9% do total. Anos antes, em São Paulo, o rinoceronte Cacareco obteve 100 mil votos para vereador.

As remotas urnas de lona, em que o eleitor escolhia seus candidatos marcando um “x” nas cédulas, já deram muito trabalho para a ex-chefe do cartório de Belo Horizonte e hoje servidora aposentada Raquel Lott. “O problema começava no dia seguinte à votação, quando tínhamos que contar os votos. Eu cuidava da apuração, e era comum anularmos muitos votos porque as cédulas estavam preenchidas incorretamente ou tinham marcações além da escolha do candidato”, relembra. O mais comum, conta a servidora, eram xingamentos ou recados para os candidatos.

Raquel tem fresca na memória a trabalhadeira que ela e equipe enfrentaram em 1988, quando Pimenta da Veiga, que agora é pré-candidato ao governo de Minas, foi eleito prefeito da capital. Foram 15 dias de apuração e conferência dos votos até que o resultado finalmente fosse oficializado. Trata-se do tempo mais longo entre a contagem dos votos e o anúncio do resultado, lembra a ex-chefe de cartório. “Ficávamos das 8h até as 21h sem parar, contando votos. Enquanto não fechávamos a contagem de uma urna, não podíamos ir embora”, explica a servidora, que trabalhou na Justiça Eleitoral de 1988 a 2010.

Os problemas, conta a aposentada, foram resolvidos com a adoção da urna eletrônica, a partir de 1996. “O curioso é que na primeira eleição com a urna eletrônica a gente manteve uma quantidade enorme de votos impressos, temendo que a urna estragasse e não fosse possível consertá-la”.

Democracia

Maioridade. Países.0Nas eleições de outubro, a urna eletrônica chegará à maioridade: 18 anos. Neste ano, 141,8 milhões de eleitores brasileiros participarão da maior eleição informatizada do país, com quase 530 mil urnas disponíveis. Diferentemente do Brasil, países como EUA ainda usam técnicas bastante antigas para registrar seus votos. Outros proibiram a tecnologia.

Experiências

“Quando houve a transição da urna de lona para a eletrônica, a expectativa foi enorme, não somente dos funcionários da Justiça Eleitoral, mas de toda a população. Não sabíamos se daria certo. Ficamos temerosos.”

Raquel Lott - ex-chefe de cartório de BH

“Havia uma descrença muito grande (quanto ao sucesso da urna eletrônica), inclusive entre colegas meus da época. Mas assumi o compromisso de afastar a mão humana da apuração.”

Carlos Velloso - Ex-presidente do TSE

Agilidade

Tempo. Na era das urnas eletrônicas, o resultado pode ser conhecido em poucas horas. Na disputa de 2012, a cidade com apuração mais demorada no país foi Salvador, com cinco horas de contagem.

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