Fazer por merecer

iG Minas Gerais |

Você acredita na Justiça Divina? Se não, faz mal, Ela um dia se mostrará, e aí as dúvidas se dissiparão. Seja justo, viva feliz e respeite a Deus “Corpore, mente, libro, doctissima, candida, casta”. Aqui se planta e aqui se colhe, agora ou mais adiante, não há pecado ou falha que passem impunes; quando essa incontestável Justiça decidir apresentar a conta na medida cirurgicamente certa, tudo será pago. O sábio Gurdjieff ensina: “Se você ajuda os outros, você será ajudado. Talvez amanhã, talvez em cem anos, mas você será ajudado (atenção que o inverso é verdadeiro para quem faz o mal). A Natureza precisa saldar a sua dívida... É uma lei matemática. E toda a vida é matemática”. Pitágoras ensinava essa divina lógica numérica, e o oriental ensinou que “até uma folha que cai na floresta de outro continente muda o mundo”. Cabe lembrar, no momento em que se aproximam as eleições, que milhões de pessoas escolherão seus representantes para dirigir o destino da nação. O que acontece nesse momento? É o mérito do candidato ou o saldo de méritos de uma nação? Esse último pesa mais, e os dois se entrelaçam. O escolhido virá para fazer o bem ou o mal que a Justiça Divina decide ser conveniente para aquele momento. Mais que de vontade própria, as coisas acontecem longe da lógica comumente aceita. Tudo bem, nós podemos mudar, mas mudar significa adicionar méritos e pecados, e ambos serão cobrados. Apenas quem enxerga em respeitoso silêncio e medita sobre a efêmera luta dos agentes políticos pode vislumbrar essa Justiça fazendo seu trabalho certo por vias tortas. Na realidade, o governante chega a uma altura em que sua função é quase exclusivamente cármica, para traduzir, “é agente do destino” bom ou ruim que seja, lindo ou feio. O diabo de máscara. O “enviado” vem para que a Justiça seja feita. Pode vir para fazer um bem aparente e plantar ao mesmo tempo as sementes das desgraças que ajudarão a infligir penitências, sofrimentos, lições. Embora as aparências possam enganar, a via mais curta para evoluir é aquela do sofrimento, por ela uma nação alcançará a maturidade. Apanhando é que se aprende. Esses comentários que seguem a evolução dos acontecimentos, como por vez eu mesmo faço, passam verniz num elefante. Diz a tradição islâmica: “O destino é feito de dois dias: um favorável e outro desfavorável. Quando estiver no primeiro, não fique orgulhoso nem arrogante; quando estiver no segundo, seja paciente”. Existe hora para tudo. Imaginar que um povo mereça um bom governante é um absurdo. Merece o que vai escolher. Mesmo que seja enganado por falsas promessas, mereceu ser enganado, restará pois ao enganador pagar pelo engano. Um povo merece os partidos que aí estão, merece afinal a corrupção, ou o mau uso dos recursos. Vote melhor, não se deixe enganar, dedique-se a compreender melhor o olhar, os gestos, as palavras. Aprenda a interpretar, a ler entre as linhas. Na fórmula corrente e mais banal de um arrazoado, atribui-se a uma nação apenas méritos, e não pecados. Daí o engano, a nação teria a excelsa capacidade de promover a melhor escolha, e enxergar a melhor a escolha que poderia deixar o mundo bem melhor. Mas se esbarra-se na Lei do Mérito. Alguém que chegasse com 500 anos de antecedência e falasse ao mundo o que ele sabe seria incompreendido pela maioria, correria perigo de ser até linchado quando aponta a solução. Tem gente assim que fica quieta, acompanha com “compaixão” a “Divina Comédia” humana. No mundo o “injusto” serve para fazer também justiça. A inteligência imperscrutável da Justiça Divina faz empalidecer a mente mais iluminada, que movimenta os infinitos fios das marionetes nesse pequeno palco da nossa vida. Pedir votos para um bom candidato não adianta muito pouco, é uma luta de grande sofrimento. Os próprios candidatos optam para enganar, falar o que o povo quer ouvir, presta-se assim ao jogo da enganação. “Engana-me que eu gosto”. Quando Pôncio Pilatos colocou o Cristo e Barrabás na loja do palácio para o povo escolher a quem indultar, o pior dos delinquentes foi preferido, deixando o melhor dos homens condenado a cruz. Assim, o Filho de Deus seguiu para um destino, deixando que aquele povo pudesse sofrer sob o jugo de exploradores. Cristo seguiu no seu papel de redentor entre insultos e cusparadas até o Calvário. Lá se consolidou sua missão. E disse: “Não esse o meu reino, mas do Senhor meu Pai”. O Brasil ainda é um país “criança”, ingênuo, crédulo. Pouco apanhou. Nada apanhou se pensarmos nos rios de sangue, de milênios de guerras, que ensoparam a Europa. Como escreveu o sábio Gurdjieff: “Hoje é o que é porque ontem foi o que foi”, mais ainda: “E se hoje é como ontem, o amanhã será como hoje”. Depende assim de atitude e de “merecer”. Por isso: “Se quiserem que o amanhã seja diferente, deverão tornar o dia de hoje diferente”. Faça o que puder, não se queixe dos outros. Reaja. Faça por merecer.

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