Um novo caminho

Modelo de captação de recursos une leis de incentivo à cultura a financiamento coletivo

iG Minas Gerais |

Espetáculo. Peça “Rita Lee Mora ao Lado” fez uso da Lei Rouanet, do Proac e também de doações
Priscila Prade / divulgação
Espetáculo. Peça “Rita Lee Mora ao Lado” fez uso da Lei Rouanet, do Proac e também de doações

Os slogans de sites de financiamento coletivo brasileiros até tentam se diferenciar utilizando expressões como “projetos de impacto”, “encontro de microempreendedores” e “para inovadores”, mas a verdade é que todos eles seguem a mesma premissa: dar suporte tecnológico para que projetos culturais, esportivos, pequenos negócios e campanhas políticas e filantrópicas possam arrecadar fundos por meio de doações de pessoas físicas.

Nos últimos cinco anos, essa prática para obtenção de recursos financeiros tornou-se popular no Brasil e recentemente desdobrou-se em um novo modelo de captação, voltado para área cultural, chamado por Carlos Rolim, sócio-fundador do site Partio, de “crossfunding”. O mecanismo é uma junção entre a captação tradicional com empresas, por meio prioritariamente de leis de incentivo, com o financiamento coletivo. “Quando tive a ideia, há dois anos, a intenção era ajudar no processo de captação de dinheiro para pequenos projetos entre pessoas conhecidas, como familiares e amigos, sem constrangimento”, comenta.

Até aí, poderia parecer com o já tradicional financiamento coletivo, porém, no crossfunding os projetos também podem utilizar de leis de incentivo à cultura e, assim, obter doações de empresas ou até mesmo de pessoas físicas. Foi ancorada nessa possibilidade que, a partir de 2011, foi lançada a plataforma Sibite. Bruno Beauchamps, um dos fundadores do site, conta que a sua experiência com o funcionamento das leis de incentivo à cultura ajudou a deslanchar o projeto.

“Eu já trabalhava na área de distribuição de cinema, captando dinheiro, por meio das leis de incentivo, quando criamos o site Sibite. Esse conhecimento da atuação das empresas, por meio dos instrumentos de patrocínio, nós somamos com essa proposta de financiamento coletivo. Foi a partir daí que surgiu nossa atuação no crossfunding e hoje atendemos vários tipos de perfis. Há desde quem opte por esse serviço porque não quer trabalhar com as leis ou quem o procure justamente por essa possibilidade de ampliar as formas de obter recursos”, explica Bruno Beuachamps.

Exemplo. Mesmo desconhecida por grande parte da população, a prática apresenta vários cases de sucessos. Entre eles, o musical “Rita Lee Mora ao Lado”, que utilizou de doações e da Lei Rouanet, ultrapassando a meta estipulada de R$ 230 mil e arrecadando R$ 305 mil. “É um processo novo, mas muito importante por permitir que pequenos programas se insiram no panorama cultural, pois ainda hoje os projetos com maiores valores recorrem às vias tradicionais”, afirma a produtora do espetáculo, Elza Costa.

O trio de música instrumental paulista Oritá também conseguiu recursos para gravação de seu primeiro CD por meio de doações, tanto de pessoa física quanto jurídica. Neste caso, a contrapartida foi o suficiente para uma universidade investir R$ 5.000 na proposta, em troca de uma apresentação para seus alunos.

“Optamos por não buscar a lei de incentivo pois é um trabalho muito grande e queríamos depender menos do governo. Ao mesmo tempo, achamos que não iríamos conseguir atingir o orçamento porque o custo era alto (R$ 28 mil) para investimentos diretos. Por isso foi um alívio quando a meta foi alcançada”, afirma o integrante e pianista da banda, Bruno Piazza.

Ambos os casos foram clientes do site Partio, que recebe 10% do valor arrecadado em troca de consultorias feitas basicamente por três formas: “recebemos proposta de quem já tem projetos aprovados em alguma lei de incentivo; de quem não quer captar via empresas ou pessoas físicas; ou de quem deseja captar por meio da Lei Rouanet, mas não tem um projeto”, lista Rolim.

Um dado frisado por ele é que pequenos projetos se beneficiam muito com essa estratégia. “Propostas de R$ 10 mil a R$ 15 mil que poderiam levar seis meses a um ano para serem aprovadas, nós conseguimos viabilizar em tempo muito menor. Em todos os casos, nós também ajudamos as pessoas a entender o mercado e temos parceiros que indicamos para escrever um projeto quando é necessário”, acrescenta Rolim.

Para a mestre em Empreendedorismo Cultural e Criativo, pela Goldsmiths University of London, Rafaela Cappai, iniciativas como o Sibite e Partio são manifestações de empreendedorismo criativo, cruciais no contexto atual do país. “É essencial investir em formas inovadoras, pois é preciso ter fontes de recursos diferentes para os projetos culturais. Dessa forma, a dependência das leis e de ter um único patrocinador diminui. Já aconteceu comigo, por exemplo, de perder patrocinador ou a lei não aprovar o projeto e o negócio morrer. Assim não há sustentabilidade”, comenta a especialista. AnÁlise.

Outro aspecto apontado por Rafaela, que torna o crossfunding atrativo para produtores, é ter o projeto exposto em uma “vitrine”, vista por financiadores diferentes. “Quando, por exemplo, um projeto para o livro consegue doações de 300 pessoas no processo, automaticamente, uma marca vai ficar interessada em ter seu nome em um projeto que conseguiu engajar um público certo”, analisa.

Ela, porém, alerta que o novo modelo é apenas um caminho a ser explorado e não deve ser entendido como único. “É importante ter receitas financeiras diversificadas, inclusive do próprio financiamento coletivo. A gente sabe que é um tipo de campanha que desgasta a relação, pois dificilmente a mesma pessoa vai ficar contribuindo todo mês. Mas costumo dizer que é mais uma moedinha nesse cofre”, afirma.

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