Olho de boi é que engorda o dono

iG Minas Gerais |

Intelectual pensa que sabe das coisas porque nunca ouviu conversa de bicho
Intervenção sobre foto de Onofre, belo exemplar de anum-preto
Intelectual pensa que sabe das coisas porque nunca ouviu conversa de bicho
Imponente casal de guzerás pastava tranquilamente. Grandes, gordos, chifrudos. Trepado na porteira, Jeca Tatu olhava para bem longe. Pequeno, magro, tristonho. Mordiscava um talo de capim e parecia preocupado. Mascando e babando, abanavam os rabos os bovinos, espantando moscas inexistentes. Nas costas de um deles, lustroso casal de anuns-pretos catava carrapato. PAPO DE CARRAPATO Irritado com o banquete dos anuns, disse o carrapato Pedrão à consorte, vagarosa como o maridão, que também chupava o sangue morno e gostoso do boi Genaro: – Não aguento mais tanta perseguição, Joaninha. Vou entrar com habeas corpus! Principalmente porque anum não come carrapato, isso não passa de lenda. – Faz muito bem, Pedrão – concordou Joaninha, arrotando. – Desse jeito, qualquer dia não se poderá mais almoçar em paz. Pra embasar sua petição, pode citar o Aurélio. Está lá bem claro: “Ao contrário do que se diz, anum-preto não se alimenta de carrapatos”. Mais claro, impossível. PAPO DE ANUM-PRETO Riu o anum-preto macho, Onofre, o papo cheio de carrapatos: – Essa é muito boa! “Não se alimenta de carrapatos”. Essa é ótima. Pois o que estamos fazendo aqui, nas costas do Genaro? Ripostou às gargalhadas Maricota, a anum-preto fêmea: – Essa gente da cidade é tudo uma comédia só! Imagine: anum-preto não come carrapato! De onde tiraram essa ideia? Desde que o mundo é mundo, carrapato sempre foi nosso prato preferido! Só pode ser coisa de intelectual. PAPO DE GUZERÁ Mascando sossegado seu capim-angola para lá de suculento, Genaro, o chifrudo macho, virou-se para a chifruda fêmea: – É um saco essa conversa fiada, Maria Chiquinha. Todo mundo sabe como apreciamos almoçar em silêncio. Simples questão de boa educação. Falar de boca cheia é deselegante e prejudicial à digestão. Por que não calam o bico? – Porque são dois idiotas, Genaro, meu bem – xingou bem alto Maria Chiquinha, abanando com força o rabo. – Ah, quem me dera acertar um deles! ENQUANTO ISSO... Enquanto isso, trepado na cerca, Jeca Tatu olhava para longe. E tanto olhava, e tanto parecia preocupado, que os bichos também se preocuparam. Muito antes, sofrera Jeca de verminose, curou-o Monteiro Lobato. Sadio e trabalhador, endinheirou-se, comprou fazenda, casou com Rosinha, caipira lindinha, e teve um casal de filhos bonitos e inteligentes. Para que mais? Era feliz e não estava prosa. PAPO DE CARRAPATO – Não tô gostando nem um pouco da cara do Jeca. Será que tá de novo com o sangue aguado? Dizem que sangue ralo dá tristeza, podendo até matar. – Já ouvi falar. Só não sei de onde tirou a tristeza. Tem uma fazenda enorme, centenas de cabeças de tudo quanto é gado, mulher bonita, empregados espertos... – Não será porque felicidade é como sangue de boi, quando é demais enjoa? – Cê tem razão, criatura! Acho que deve ser isso. PAPO DE ANUM-PRETO – Até que esses carrapatos não são burros, viu só o que estão dizendo? – Viu, não, seu bobo: ouviu. Ver é com os olhos, ouvir, com os ouvidos. Ou nunca aprendeu sobre os sete sentidos? – Que sete sentidos, Maricota? Até ontem eram só cinco... – Sete, sim senhor. Visão, audição, olfato, tato, paladar, amor e saudade. PAPO DE GUZERÁ – Ouviu isso, Maria Chiquinha? Está dizendo a anum fêmea que amor e saudade são sentidos também. Será verdade? Nem sei o que significam amor e saudade. – Eu também não, Genaro, meu bem. Os outros sentidos eu sei, principalmente paladar. Falar nisso, que delícia este capim angola, não é? – Também acho. Só que nunca provei outro, então não dá pra comparar. PAPO DE CARRAPATO – Amor eu sei o que é: um fogo que arde sem se ver, ferida que dói e não se sente, um contentamento descontente, dor que desatina sem doer. – Lindo! Você até parece poeta! Por que não escreve um soneto começando assim? Se escrever, dedica ele pra mim, dedica? PAPO DE ANUM-PRETO   – Acho que matei a charada, mulher! Jeca tá é com saudade. Também, pra que foi casar com mulher bonita? Agora que ela foi tratar dos dentes na capital, ele não se aguenta e passa os dias desse jeito. Tristinho, tristinho. PROBLEMA RESOLVIDO – Claro que é isso, Maria Chiquinha! – e Genaro arregalou os olhos. – O que tá emagrecendo ele são os sentidos que não temos: amor e saudade. Que tal a gente arranjar um bom remédio? E se a gente cantasse pra levantar o astral dele? E foi assim que bois, anuns e carrapatos passaram a cantar, nos intervalos das comilanças, lindas melodias para engordar de novo Jeca Tatu. Não adiantou nada. Rosinha se apaixonou pelo dentista e nunca mais voltou.

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