A grande mania

iG Minas Gerais |

No processo da casa nova doei eletrodomésticos, roupas e livros. Outro dia, estava procurando um casaco e me lembrei que ele foi embora nesse ritual de desapego que encheria qualquer monge budista de orgulho. Duas amigas ficaram chocadas com meu espaço compacto para roupas e sapatos no armário. “Como você conseguiu?”, perguntou uma delas. Tudo bem que ocupei um pouco do território vizinho, mas isso fazia parte do acordo. Arrumando caixas de uma mudança interminável, que chega à fase final, me deparei com uma série de jornais e revistas velhos dos quais simplesmente não consigo me desfazer. São publicações que nem existem mais, que possivelmente os jovens jornalistas nunca tenham visto, como o “Jornal do Brasil”. Meu pai adorava ler aos domingos e eu, de quebra, sempre guardava uma crônica ou uma entrevista interessante. Imagino que tenha sido o começo da minha formação como jornalista. Por isso, um casaco é um casaco. Não tenho como me desfazer daqueles recortes amarelos e fedorentos assim de maneira tão racional. Juntar papel é uma das minhas maiores manias. Na bolsa, consigo me fazer dos que apelidei de Gremlins – comprovantes de cartões de débito e crédito que se multiplicam como os monstrinhos do filme – semanalmente. Foi um exercício e tanto. Tive que entoar o mantra: “se o banco fizer uma cobrança indevida, eu hei de provar quanto gastei” um milhão de vezes. Até pouquíssimo tempo atrás guardava uma caixa com cartões de visita. Não preciso dizer eles continham números completamente defasados.  Sou a alegria de quem distribuiu panfletos na rua. Guardo alguns, sempre penso que podem ser úteis. Eu vivo dizendo para mim mesma: “pare com isso, Ludmila, qualquer coisa você busca esse marceneiro na internet, onde é possível buscar uma lista já com os orçamentos”. Respiro, conto até dez e fico diante de lixeiras por segundos. Alguns passantes me acham meio louca. No entanto, eu não chego a dizer “tchau panfletinho, foi bom enquanto durou”. Eventualmente, em surtos de arrumação, jogo tanto papel fora que acabo despachando algum documento importante, como comprovante de imposto de renda, a senha da poupança que evito usar, portanto, não memorizo, e assim por diante.  Meu segundo maior tesouro após a caixa de jornais e revistas é a caixa de cartas. Ali estão garranchos de amigas dos anos de colégio (quem sabe elas mal se lembrem de mim?), juras de amor de amores que deixaram de ser, votos de feliz aniversário das pessoas mais importantes da minha vida, muitas das quais não estão mais por aqui. São caixas que, mudanças após mudanças, seguem intactas, e não há quem consiga me convencer a me desfazer delas. Se a vida fosse como no cinema, eu teria uma daquelas portinhas secretas em bancos blindadíssimos para guardar meus amados papéis.

Ludmila Azevedo é jornalista, pós-graduada em cinema e escreve essas e outras crônicas no ludj.blogspot.com.br. 

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