Pequena Serra da Saudade se une em prol da Copa do Mundo

Considerada a menor cidade do Brasil, município libera até funcionários públicos para engrossar torcida por seleção no Mundial

iG Minas Gerais | ISABELLA LACERDA |

Clima de Copa do Mundo é marcante na cidade onde “todo mundo se conhece”
Pedro Gontijo/O TEMPO
Clima de Copa do Mundo é marcante na cidade onde “todo mundo se conhece”

Serra da Saudade. Se pudesse escalar o time dos sonhos da seleção brasileira, Branco, Zangão, Fiico e Barbudo teriam vaga garantida na equipe de Geraldo Fidélis, 53. Morador de Serra da Saudade (Central), a menor cidade do país de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) , Gê, como é mais conhecido, lembra com saudade do tempo em que o município de 825 habitantes “respirava” futebol e se orgulhava de seu time,  o “Leão da Serra”.

Gê foi um dos integrantes do "famoso" time de futebol de campo que se tornou o queridinho da cidade pelos times formados e campeonatos disputados no interior, principalmente na década de 80. De lá para cá, porém, o futebol local foi perdendo força, fato justificado pelo pequeno número de jovens moradores disponíveis para formar uma equipe. Há 40 anos, a cidade era formada por mais de 2.000 serrano-saudalenses, quase três vezes a população atual.

“A cidade era maior, tinha mais gente. Mas como não tem uma atividade econômica forte, acabou perdendo moradores ano a ano. Agora, a criança cresce um pouquinho e já sai daqui para estudar e trabalhar. Não tem mais gente disponível para jogar pelo time”, conta Gê, que depois da desconfiança inicial, própria da população local, esbanjou simpatia ao receber a equipe de O TEMPO neste sábado em sua casa.  “Mas no nosso time, o Neymar tinha vaga garantida”, brinca o ex-artilheiro e ex-treinador do Leão, ao relembrar o time “estrelado” do Leão e os jogos disputados. “Dentro da nossa casa a gente nunca perdeu. Fazíamos partidas até de solteiros contra casados”.

Desde 12 de junho, no entanto, a cidade de 30 quarteirões, nenhum semáforo e pouca infraestrutura – há apenas uma escola e um posto de saúde, e nenhuma farmácia ou posto de gasolina – voltou a sentir o clima próprio do futebol e a conviver com um agito anormal por suas pacatas ruas. O grande número de bandeiras nas cores verde e amarela, os foguetes e o telão instalado na praça denunciam o clima pró-Copa na cidade, uma novidade se comparado aos últimos campeonatos mundiais ocorridos fora do país.

“Moro há 30 anos em Serra e não me lembro de outra Copa em que os moradores assistiram ao jogo juntos, nem mesmo comemoraram as partidas. Por isso decidi organizar a festa ”, justifica a prefeita Neusa Maria Ribeiro (PROS).

Na partida entre Brasil e Chile, ontem, a praça e os bares – esses encontrados com fartura pelas vielas – ficaram cheios: 80 pessoas, o equivalente a 10% da população local, reuniram-se para torcer pelo sucesso da seleção brasileira.  O número, segundo relatos dos moradores, é ainda maior quando as partidas acontecem no meio da semana, já que as crianças estão de férias e os servidores públicos são liberados para engrossar a torcida.

“Aqui gostamos muito de futebol. Nos dias de jogos, a cidade fica mais movimentada e tudo fica mais cheio, considerando, claro, o tamanho da população. O melhor mesmo é que a gente pode contar nos dedos as pessoas e, se dez faltarem, a gente sabe quem são elas”, brinca o funcionário público Antônio Gomes, que há 60 anos mora em Serra da Saudade. No município, a maior parte dos empregos são oferecidos pela prefeitura.

No jogo deste sábado, só não foi maior a tensão da torcida, que entre gritos de guerra, palavrões e até choro assistiu incrédula à disputa de pênaltis. A intimidade entre as pessoas, que se conhecem não só pelo nome, mas também pela família a que pertencem, facilita até na hora da comemoração. Após o jogo, toda a cidade já tem outro encontro marcado:  o tradicional arraial serrano-saudalense, um dos três eventos realizados anualmente no município.

Notas:

1.  Haja coração

Odilon Costa, 89, chegou a Serra da Saudade há mais de 60 anos, antes mesmo dela se emancipar e se tornar uma cidade. Apesar de sua residência ser em frente a pequena praça onde parte da população assistiu ao jogo entre Brasil e Chile, ele prefere manter a tradição e torcer pelo Brasil sozinha em sua casa centenária . “Eu já tive problema de coração. Fico sozinho na minha casa para evitar ficar muito nervoso e passar mal. Mas o Brasil vai ganhar. Não é?”, questiona o aposentado, uma das figuras mais ilustres do município. Ele viu a população da cidade minguar ano a ano, mas garante que é feliz. “Minha esposa já faleceu, tenho filhos que foram morar fora. Mas aqui eu consigo ser feliz. Me esforço para isso”, garante, sorridente.

2. Bolão

Os moradores de Serra da Piedade também são adeptos do bolão. Mas, na cidade, se tem alguém que nunca sai perdendo é o dono das apostas, que do bolo de dinheiro sempre tira 10%. Desde o primeiro jogo do Brasil, as apostas somaram, no mínimo, R$ 160, e em todos houve um vencedor.

3. A cidade

Das 825 pessoas que moram em Serra da Saudade, ao menos 170 são funcionárias públicas. A prefeitura é a principal fonte de empregos na cidade. O orçamento anual da prefeitura é de R$ 11 milhões.

4. Mineirão

Apesar da torcida constante pelo Brasil e o amor pelo futebol, Seu Antônio Gomes não conhece o palco do jogo de ontem, o Mineirão. E, segundo ele, nem tem vontade. “Não conheço e não tenho muita vontade de ir. Até porque é muito perigoso. Não é?”, questiona o funcionário público, acostumado a viver em uma cidade onde há 50 anos não ocorre um homicídio e que as casas ficam abertas, à espera da chegada de um vizinho ou amigo.