Para parar no Pará

iG Minas Gerais | Renato Quintino |

Nobres peixes de rio com o frescor de legumes, folhas e ervas estão nas boas mesas do Pará
Renato Quintino/divulgação
Nobres peixes de rio com o frescor de legumes, folhas e ervas estão nas boas mesas do Pará

Os estrangeiros adoram achar que a cozinha brasileira é a da Amazônia. Distorções de imagem à parte, a cozinha da região Norte é mais difundida no exterior do que por aqui, sendo os Estados de Amazonas e Pará uma parada quase obrigatória para todo grande chef europeu que visita o Brasil.

Embora pouco conhecida no seu todo pelos brasileiros do Sudeste, a cozinha paraense tem como referência o célebre pato ao tucupi, um dos maiores símbolos da gastronomia nacional. Com forte origem na cultura indígena, a mandioca brava é um dos pilares (seu veneno é extraído num complexo processo de cocção), fazendo de tucupi e tacacá à sobremesas, como um suflê de mandioca (uma delícia, que o diga Claude Troisgois).

Belém é uma cidade bonita, com avenidas que lembram bulevares europeus arborizados, que se expande a partir do lendário mercado Ver-o-Peso, na beira do rio e que tem como um de seus símbolos a infalível “chuva das 16h30”, que dura quase pontuais 15 minutos.

O Ver-o-Peso (antigo posto onde pesava-se mercadorias em trânsito pelo rio, daí seu nome) é a maior instituição da cidade. Passear no mercado permite provar de polpas frescas de frutas (que chegam congeladas ao restante do país), à polpa in natura de bacuri com creme de açaí, preparado na hora (com a fruta recém-chegada de barco, no amanhecer).

As farinhas são de todos os tipos e texturas, as pimentas também, as folhas são célebres, como as de maniva, moídas na hora (para fazer maniçoba, a “feijoada” – sem feijão – do Pará) e as de jambu (fundamental no pato ao tucupi, trazendo a famosa dormência na boca), sem falar nas muitas ervas “milagrosas” (herança da cultura indígena?), que supostamente curam tudo.

Sabores

O mercado é exuberante em ofertas como de camarão aviú, caranguejos, peixes, como pintado, pirarucu (fresco e seco), pescada amarela e tambaqui. O feijão-manteguinha, de Santarém, e o famoso queijo de Marajó enriquecem ainda mais o cenário, enquanto liquidificadores cheios de acerola fazem sucos refrescantes para acompanhar as refeições populares das barracas vizinhas com o tradicional peixe fresco grelhado, acompanhado de farinhas.

O restaurante Lá em Casa foi o primeiro que chamou a atenção do Sudeste para a cozinha do Pará, com a sua versão do pato ao tucupi, o espaguete com jambu e castanhas e o seu famoso tabuleiro de doces, que incluía do cupuaçu com doce de leite ao olho de sogra coberto de castanha-do-pará.

Prazer único

Para um brasileiro do Sudeste, os sorvetes do Pará são uma experiência única, nada de flocos, gianduia, mascarpone e chocolate. Por lá, é bom se esbaldar em sabores como bacuri, cupuaçu, taperebá, murici, castanha-do-pará e tapioca, além, é claro, no já manjado por aqui, açaí.

Como disse Mário de Andrade (numa carta a Manuel Bandeira, em 1927), chega a ser um prazer “sexual” estar em Belém do Pará e provar um sorvete de cupuaçu, sentado em frente às mangueiras, no calor morno logo após a chuva da tarde. Vindo de um escritor famoso pela castidade, não é pouca coisa.

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