Sou do mundo, sou BH

iG Minas Gerais | Giselle Ferreira |

Nem a goleada sofrida em BH desanimou a torcida grega
JOÃO GODINHO
Nem a goleada sofrida em BH desanimou a torcida grega
Dos 193 países reconhecidos pela Organização das Nações Unidas, David Yates já conheceu 120 e Mike Doyle, 75. O inglês e o australiano, no entanto, nunca tinham ouvido falar de Belo Horizonte antes de a capital ter sido escolhida como uma das 12 sedes da Copa do Mundo no Brasil. Mesmo torcendo para uma seleção que foi vítima na cidade de uma das maiores zebras de todos os Mundiais – a Inglaterra foi derrotada pelos Estados Unidos, por 1 a 0, no Independência, na Copa de 1950 –, os dois seriam incapazes de apontar BH no mapa há algumas semanas.    Na última terça (24), a Inglaterra, seleção apoiada por David e Mike, deu adeus à competição mais uma vez na cidade que está conquistando quem a visita pela primeira vez. Escondida entre os mares de morros, BH se projeta pouco como polo turístico, mas com a visita de aproximadamente 180 mil estrangeiros durante todo o Mundial (dados da Secretaria de Estado, Turismo e Esportes) , o quadro pode começar a mudar em breve. E se “Belo Horizonte: a Cidade que Conquista” é o nosso mote, a opinião geral dos nossos visitantes é de que estamos no caminho certo – mas não sem ressalvas. “Já passamos por Porto Alegre, Cuiabá, Rio e São Paulo e, até agora, preferimos Belo Horizonte. Aqui tem mais estrutura, está tudo mais limpo e mais organizado. A cidade é mais amigável e mais eficiente que os outros lugares”, concordam David, 45, investidor residente em Londres, e Mike, 46, gerente vindo de Brisbane. Os amigos, que estudaram juntos na juventude, agora se encontram três ou quatro vezes ao ano em diferentes partes do planeta.    O londrino Chris Gigante, 35, também é só elogios. A calma que paira pelas nossas ruas e o tutu de feijão foram eleitos suas coisas preferidas. “A caipirinha é boa, mas o tutu de feijão é demais!”. O jornalista do periódico francês “Le Monde”, Anthony Hernandez, foi outro dos que se rendeu à cidade que “surgiu do nada” em meio às montanhas. A arquitetura, a gastronomia e os botecos são os destaques da cidade, na opinião de Hernandez, que considerou o Mercado Central como um misto de “dedicado aos deuses da gastronomia” e “Arca de Noé”, provando que o melhor atrativo da capital não precisa de investimentos bilionários.   O que se vê é que o turista se encanta mais com tudo o que faz parte do cotidiano do mineiro – desde a beleza da nossa arquitetura e dos nossos parques à variedade da nossa comida e ao jeito caloroso com que todos são recebidos – e adora experimentar por aqui um aperitivo da cultura brasileira mais próxima da nossa própria realidade.    Porém...   Mas se as nossas paisagens e a nossa hospitalidade são unanimidades, a infra-estrutura é assunto controverso. O advogado argentino Jorge de la Rete, 34, também se diz encantado com a cidade mineira, mas pontua problemas na estrutura turística. “Nos surpreendeu a grandeza da cidade e o ótimo trato social, todos estão sempre dispostos a ajudar os estrangeiros. Mas também se nota a falta de preparo adequado para orientar os turistas. Eu fui a um camping na Pampulha estacionar o motorhome e foi confuso, assim como as rotas pela cidade. Faltam placas nos locais mais concorridos e fundamentais para o turista. Mas, em comparação com outras cidades, nos surpreendemos para melhor com BH”, explicou. A Belotur, no entanto, declarou que instalou 252 placas de sinalização e inaugurou outros nove postos de informação ao turista. “Foram atendidas, até agora, mais de 22 mil pessoas nos postos espalhados pela cidade”, afirmou o presidente da empresa, Mauro Werkema.   Curtiram:                                         Estrutura do Aeroporto de Confins “Aqui está mais organizado”, David Yates, inglês  Caipirinha com cachaça mineira “Adoramos sua eficiência!”, Mike Doyle, australiano  Hospitalidade  “Aqui eu me sinto muito confortável. As pessoas são muito legais!”, Cici, chinesa  Gastronomia “A comida mineira é a melhor do Brasil”. Juan Pablo Príncipe, argentino Verde “O mais maravilhoso é a vegetação no meio da cidade!” Sebastián Calderón, argentino   Não curtiram:   Falta de comida e água no Mineirão "Só tinha pipoca", David Yates, inglês Falta de sinalização "Não existem placas suficientes nos locais mais fundamentais para o turista", Jorge de la Rete, argentino Falta de preparo dos bares e da Prefeitura "Minha impressão é que estão muito americanizados e que a língua é uma barreira forte entre Argentina e o Brasil", Sebastián Calderón, argentino      Visitantes falam de estrutura e até protesto   “A Copa é boa para a gastronomia, mas ninguém em BH está preparado para tanta gente. É um evento para gringo e o brasileiro não sabe bem como lidar. Os bares não têm atendimento bom, o transporte não funciona bem e não tem banheiros suficientes na rua”, afirma o alemão Enes Doe, 26, que está trabalhando num bar da Savassi, local que tem atraído a maior parte dos estrangeiros na cidade e cujos moradores têm sofrido com a sujeira, os eventuais episódios de violência e ou mau cheiro causados pelo baixo número de banheiros públicos.    Os colombianos Doris, 60, e Carlos Gonzáles, 22, também têm um olhar crítico e chegam a citar os protestos populares por melhorias no país. “Para o turista, a organização é boa. Mas, devido às manifestações, descobrimos que não é bem assim para parte da população. O transporte aqui é complicado: os táxis são caros e nós não pegamos ônibus por ser muito difícil. A cidade é bonita, mas não está cheirando bem”, conta o estudante sobre a sujeira acumulada na Savassi.    A Belotur informou que mais 88 banheiros químicos – além dos 60 que já haviam – ficarão disponíveis na região até o final da Copa.     A VELHA HOSPITALIDADE   BH não tem mar, mas tem simpatia pra dar e vender; Belotur estuda como rentabilizar   “Eu vou ao Sul do Brasil e me sinto num lugar relativamente estrangeiro. Vou a Salvador, me sinto num lugar bastante estrangeiro. Porque no Sul do Brasil parece que fui pra Europa; na Bahia, parece que fui pra África. Mas quando eu vou pra Minas eu sinto que eu fui pra dentro do Brasil”. Atribuída à atriz Fernanda Montenegro, a frase foi citada por Caetano Veloso em uma entrevista sobre a música “A Terceira Margem do Rio”, composta em parceira com o mineiro Milton Nascimento e baseada no conto homônimo do também filho pródigo de Minas Gerais, João Guimarães Rosa.    Atemporais, as palavras de Fernanda ecoam o que tem saltado aos olhos dos milhares de estrangeiros que têm passado por aqui. “Passei antes pelo Rio e por São Paulo. Estou no Brasil há sete meses, mas só agora, para a Copa do Mundo, vim a BH. Em São Paulo, sempre me contavam das cachoeiras e da comida mineira. Já vim aqui com uma ideia positiva, mas quando cheguei, entendi que aqui é que se pode mesmo conhecer a cultura brasileira. São Paulo e Rio são grandes cidades comerciais. Já tem muito turista e cultura estrangeira nesses lugares. Belo Horizonte tem mais cara de Brasil. Me sinto muito mais gringo aqui. As pessoas são, inclusive, mais legais e receptivas com a gente porque gringo aqui não se vê todo dia”, conta o guia turístico argentino Sergio Ayub, 29, enrolado em uma bandeira do Atlético Mineiro ao confessar ter chorado no Mineirão quando Messi marcou para a Argentina aos 46 do segundo tempo contra o Irã, garantindo a classificação da seleção albiceleste.    Se a combinação entre arquitetura e natureza, ainda presente em abundância na capital, chama a atenção e impressiona, a quantidade de crianças nas ruas não passa despercebida. “Em Belo Horizonte, eu encontrei uma cidade muito agradável. O mais maravilhoso é a vegetação no meio da cidade, é tudo muito verde, muitos parques, muita vida botânica. A população local é muito simpática, sempre atenta para ajudar os estrangeiros que estão aqui visitando. No entanto, me chamou a atenção a quantidade de pessoas que vivem na rua”, conta o jornalista argentino Sebastián Calderón, 31, que visitou o Palácio das Artes, o Circuito Cultural da Praça da Liberdade e “A Ocupação” – evento que aconteceu na Praça da Estação, levando adiante a proposta de uso popular e espontâneo do espaço público. “BH é uma cidade muito interessante, com muita vida cultural. Gostei muito da exposição sobre a Ditadura Militar brasileira, mas a minha coisa favorita foi ‘A Ocupação’ que algumas pessoas fizeram no centro. Eu tive a sorte de conhecer muitas pessoas abertas, interessantes e com opiniões politicamente formadas”, afirma o jornalista, que afirma também ter achado o transporte caro.   Em casa   “No dia do jogo, foi incrível: era como se cada um de nós fôssemos atores famosos. As pessoas gritavam Colômbia! Colômbia! pelas ruas, todo mundo nos parava para tirar fotos com a gente. Fomos caminhando até o Mineirão, passando pela orla da Lagoa, que é linda. Não tivemos muito tempo para conhecer outras regiões, mas agora nos arrependemos. Fomos a Brasília e Rio, e BH está em segundo lugar em nossos corações – desculpe, é muito difícil competir com o mar! –, mas em relação às pessoas, BH ganha disparado. Nós nos sentimos em casa em todos os momentos e provamos várias comidas ótimas”, conta o colombiano Ito Buendia Gaviria, 35, que confessa ter adorado o centro da cidade e a Igreja São José. “Eu sempre volto aos lugares por sua beleza e principalmente pelo seu povo. Claro que Belo Horizonte estará de novo na nossa lista!”, conclui.    Cici, a viajante chinesa que durante a última semana podia ser encontrada na Savassi vendendo tatuagens colantes, é a prova de que fazer amigos é melhor do que fazer negócios. “Estou há cinco dias aqui e estou amando BH. Não vendo muito, mas faço tantos amigos que, no fim, vale a pena!”, afirma a ex-consultora de moda que largou o emprego na China para viajar pelo mundo. “Em BH, me sinto muito confortável. Aqui as pessoas são muito legais. Não falo uma palavra de português, mas sempre arrumamos um jeito de nos comunicar”, observa, lembrando da boa vontade dos mineiros em fazer novas amizades e atender a todas as expectativas.   Segurança   Outro quesito que tem agradado gregos, argentinos, belgas, ingleses e colombianos é a segurança que a capital mineira passa aos turistas. Ruben Rodríguez, administrador costa-riquenho, 33, visitou cidades litorâneas como o Rio de Janeiro, Fortaleza, Natal e Recife, e ressalta que à beira da praia é sempre mais perigoso no Brasil. “Aqui é muito diferente. É muito mais seguro e a festa é mais tranquila. A cidade tem preços melhores também”, conta o torcedor, que complementa elogiando o esquema de hospedagem do site de aluguéis Airbnb. “Estamos ficando num apartamento no Burita, Burritos? (arrisca Ruben, sobre o Buritis) e é muito legal por ter um amigo local que te apresenta os lugares onde você deve ir. Estamos aqui com o tempo curto, mas com certeza fica a vontade de voltar para conhecer melhor a Pampulha e o interior”, conclui.    Números de BH   Primeira fase do Mundial, segundo números da Secopa. Bares Aumento de 70% no movimento no período Cultura 116 mil visitas aos museus que integram o Circuito da Praça da Liberdade Pão de queijo 300 kg assados e vendidos     Belotur mira no pós-Copa   A chinesa Cici não se importa com os negócios, mas há quem já esteja pensando em transformar a vocação hospitaleira de Minas em números. A Belotur informa que a discussão mais importante do momento é sobre como BH irá aproveitar a divulgação internacional para se consolidar como destino turístico. Dois planos já estão na pauta para o pós-Copa: o programa “BH Hospitaleiro” envolve redes de gastronomia e hotelaria para atrair visitantes e outro projeto, voltado para o turismo de negócios, também promete movimentar a capital.  “Acredito que BH está ganhando muito e aprendendo diariamente. Nós não somos cidade histórica e não temos mar. Temos uma cidade voltada para a economia criativa e achamos que o turismo de evento pode ser transformado no nosso maior trunfo”,diz o presidente da Belotur, Mauro Werkema.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave