Memórias musicais coletivas e improvisação

Público é responsável por selecionar temáticas musicais que serão improvisadas pelos dançarinos do grupo

iG Minas Gerais | gustavo rocha |

Para todos. Coletivo Movasse dissemina a dança com expressão humana acessível a qualquer pessoa
Ed Félix
Para todos. Coletivo Movasse dissemina a dança com expressão humana acessível a qualquer pessoa

O improviso, dentre os artistas de artes cênicas, é pedra filosofal para conduzir seus trabalhos criativos na sala de ensaio. Os jogos propostos na criação dos espetáculos, geralmente, são “apenas” um motivador para se chegar às cenas ou coreografias daquilo que será apresentado ao público. No entanto, a prática de escancarar os processos e dividí-los com a plateia tem se tornado mais recorrente. Ela notoriamente começou no teatro com o espetáculo de “Match de Improvisação” e chega à dança, com “Playlist”, do coletivo Movasse, que se apresenta nesse fim de semana, no Museu Mineiro.

“A gente trabalha com improvisação no processo de todos nossos trabalhos. Com o ‘Playlist’, resolvemos levar o improviso para a cena”, destaca Andréa Anhaia, integrante e dançarina do coletivo.

O espetáculo é composto por oito playlists (listas de músicas). Cada uma reunindo uma média de 50 canções. Ainda na entrada, uma lista de votação fica disponível para que cada espectador eleja um tema. “As playlists são para ditar o clima do espetáculo. ‘In Memoriam’, ‘Cuicas’, ‘Amor e Suas Consequências’, ‘Para Não LevaraSério’ são algumas delas, conta Anhaia.

Os improvisadores não sabem quais das várias músicas selecionadas por eles serão reproduzidas e nem sua ordem. Definidas estas composições, o tema escolhido é revelado, e se inicia a obra construída unicamente para aquela apresentação.

“Nós não sabemos da seleção do público antes da hora e as músicas são tocadas de maneira aleatória, assim não tem como estabelecer sequências muito rígidas. Além disso, o espetáculo é apresentado com suas regras por uma mestre de cerimônia e o público ainda escolhe aqueles dançarinos que vão participar da primeira e da última sequência da peça”, revela Anhaia.

O improviso também serve para incentivar a imaginação da plateia. “Em Belo Horizonte, nós temos um público cativo. As pessoas ficam curiosas para ver novamente e observar se haverá alguma mudança. E elas existem na sequência das músicas, nos figurinos que mudam dependendo da playlist escolhida”, ressalta a dançarina.

A artista destaca que a filosofia do Movasse é tentar aproximar a dança das pessoas “normais”. “Nós não somos e não queremos bailarinos atletas, nós somos bailarinos humanos. A dança tem que ser algo para todos. Para nos aproximarmos, nós evitamos plateia e palco. Tudo é uma coisa só. Além disso, costumamos fazer nossos trabalhos em espaços alternativos que interferem em nossa dança. Esse espetáculo é muito contagiante, porque acessa a memória por meio da música. Já tivemos apresentações que toda a plateia dançou conosco”, exalta ela.

“Playlist” foi selecionado para se apresentar na cidade no período correspondente à Copa do Mundo. Fruto de muitos protestos – muitos deles de artistas – por conta de seus altos gastos, o evento esportivo tenta proporcionar aos turistas atrações de variadas. “Esse é um assunto delicado. Nós, enquanto artistas, queremos mudança. Não é à toa que o nome de nosso grupo é Movasse. Por outro lado, a gente precisa trabalhar, tem uma questão de sobrevivência e este ano está muito difícil, com a verba pública voltada quase toda para os eventos. Quando aparece um edital que traga o turista para esse lugar que não seja dos eventos, dos Fan Fest, da bebida, a gente pode começar a mudar o olhar do público. É interessante que não só os estádios estejam cheios, mas também as apresentações. Nosso forma de nos manifestarmos sempre foi através da dança”, ressalta Anhaia. Serviço. “Playlist. Amanhã e domingo, às 18h, no Museu Mineiro (avenida João Pinheiro, 342, centro). Entrada gratuita

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