Bardo do Bar: Sapucaia

iG Minas Gerais |

acir galvao
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Estive por esses dias recordando, em um bate-papo com Vicente, o Homero de triste memória. Rapaz de boa estampa que morava ali pela região, no Alto Vera Cruz, ele trabalhou como garçom no Sapucaia por um curto período de tempo, menos de um ano, conforme nossos cálculos. Homero era filho de um compadre de Vicente, estava desempregado e aceitou feliz o convite para trabalhar no boteco. Brincalhão, atencioso e eficiente, conquistou logo a simpatia da freguesia habitual do Sapucaia. Também não se furtava a puxar conversa ou fazer algum gracejo com clientes sazonais e mesmo com aqueles que nunca tinha visto. Com as mulheres era particularmente cortês e galanteador, e a maioria delas, diante dos encantos do rapaz, é claro, se derretia. Foi assim com Carmem, desastrosamente. A primeira vez que ela apareceu no Sapucaia foi acompanhando Rita, frequentadora ocasional que morava bem pertinho, numa rua tangente ao cemitério da Saudade, e que trabalhava na Unidade de Pronto Atendimento da região Leste, também não muito distante dali. Verdade seja dita, Carmem, que era colega de trabalho de Rita, era feia: a arcada dentária superior saliente, com os dentes, alguns encavalados, muito projetados para frente, as orelhas de abano que o cabelo liso e escorrido não escondia, os olhos pequenos e muito próximos um do outro, somados ao nariz delgado e pontiagudo conferiam-lhe um aspecto de ave pantaneira. Via-se também que era muito tímida. Quando atendeu à mesa em que ela, Rita e uma outra mulher estavam sentadas, Homero obviamente fez a corte. Carmem riu, mas recolheu rapidamente e envergonhada as gengivas e os dentes protuberantes. Vicente é quem lembrou desses detalhes, já que eu não me recordo sequer de ter estado no Sapucaia nesse dia. Do lado de traz do balcão, ele me contava que, naquela ocasião, Homero se manteve muito atencioso com a mesa e particularmente amável com Carmem. Pude conferir depois, nas vezes subsequentes em que estive no Sapucaia, o tratamento afetuoso, mas visivelmente canastrão, que ele dispensava à freguesa, que acabou se tornando assídua, mesmo depois que Rita mudou de emprego e, portanto, deixou de ser companhia para a cerveja de fim de tarde pós-expediente. Homero fazia elogios a Carmem, exagerava nos galanteios, dizia que seu coração era dela, e depois de criar intimidade e vencer a timidez da moça, já ousava enlaçar sua cintura e dizer-lhe sabe-se lá o quê ao pé do ouvido. Sem Rita, Carmem passou a ir ao Sapucaia cada vez com mais frequência, na companhia de outras colegas de trabalho e, não raro, sozinha. Estava obviamente encantada por Homero e isso não escapava a nenhum dos clientes que batiam ponto no Sapucaia. O que também era claro para todos é que Homero estava só se divertindo maldosamente com Carmem. Tão logo ela dava as costas e ia embora para casa envolta em suspiros, Homero desatava a rir, espezinhando a moça. “Vai ser feia assim no quinto dos infernos. Que filhote de cruz credo com Deus me livre! E é tão abestalhada, né!? Tão idiota. Está caidinha por mim, vocês percebem?”, perguntava, sem obter resposta, porque ninguém além dele estava achando graça naquilo. Algum tempo depois Homero se enrabichou de fato com uma moça da vizinhança, uma tal de Neide, que certo dia resolveu aparecer no bar no mesmo horário que Carmem costumava passar. Depois que saiu da Unidade de Pronto Atendimento, ela trocou seu jaleco por um vestido florido e foi toda lépida, alegre e vaporosa para o Sapucaia. Ao ver Homero aos chamegos com Neide, ficou passada, sentou-se, pediu uma cerveja, foi secamente atendida por ele e quando o chamou para conversar, foi terrivelmente destratada pelo rapaz, que, cioso da presença de Neide, foi extremamente rude com Carmem. Ela ficou parada um tempo no meio do bar, sob os olhares pesarosos de todos, tentando sem sucesso conter as lágrimas, com as mãos fechadas com muita força, tendo visíveis contrações por todo o corpo, com se estivesse sendo possuída, mas apenas tentando conter a explosão que, incontrolável, aconteceu. Ela desatou num choro convulsivo antes de sair correndo pela rua para nunca mais aparecer por aquelas bandas. Vicente demitiu Homero no dia seguinte.

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