“É importante enfatizar que isso foi feito por eles”

iG Minas Gerais | Vinícius Lacerda |

Cobertura de concentração realizada sob o viaduto Santa Tereza
bhnasruas / divulgação
Cobertura de concentração realizada sob o viaduto Santa Tereza

Produzido por alunos da comunicação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o livro “#BHNASRUAS: Uma Experiência de Cobertura Colaborativa”, que será lançado hoje, na livraria Quixote, mostra, sob uma perspectiva pedagógica, os aprendizados e descobertas feitas pela equipe durante a cobertura das manifestações de 2013.

“Enfrentamos situações novas desde a criação da página no Facebook as quais não sabíamos muitas vezes como lidar. Coisas que pareciam detalhes, mas são fundamentais”, afirma Camila Braga, uma das 16 autoras do livro.

Casos para ilustrar isso não faltam. Um deles diz respeito à postagem publicada sobre uma das aparições da coronel Cláudia Romualdo, porta-voz oficial da Polícia Militar de Minas Gerais (PM). “No início publicamos as frases dela, como a mais conhecida: ‘Vocês hoje brilharam, fizeram um protesto bacana. Agora vão descansar, vão para casa’, sem pensar criticamente. Assim, divulgamos a notícia de uma forma, sendo que poderia ter sido de outra, se já soubéssemos que aquele comportamento fazia parte de uma estratégia da PM”, conta Camila.

Com relação à administração da página no Facebook, eles estabeleceram diretrizes criadas pelos próprios participantes. “Com o tempo, decidimos que não apagaríamos e nem responderíamos aos comentários, mesmo que discordássemos do conteúdo. Só teve um caso de transfobia (discriminação a pessoas transexuais e transgêneros) que respondemos ao comentário, dizendo que não aceitaríamos esse tipo de ato na página. Ainda assim não o apagamos”, relata a estudante.

Para o organizador do livro e orientador dos alunos durante os protestos, Carlos D’Andréa, os estudantes ganharam uma experiência fundamental para a formação deles como comunicólogos. “É importante enfatizar que isso foi feito por eles: alunos com visão política e habilidades que, por causa da criação do projeto, se desenvolveram muito”.

Mesmo sem ser passível de quantificação, um dos maiores ganhos foi a possibilidade de perceber (para alguns, de conhecer) nuances da prática jornalística. “Aceitamos que, apesar da busca pela imparcialidade, é impossível redigir algo completamente neutro. É impossível despir-se da linguagem da subjetividade. Assim, começamos a ter consciência de que nossa proposta seria de fazer um jornalismo testemunhal com a maior objetividade possível”, analisa Camila.

Empenho. Torna-se importante ressaltar que houve um engajamento grande por parte da equipe em todos os processos da cobertura jornalística. A dedicação, sob o olhar de D’Andréa, reverberou-se em confiança por parte do público que acompanhou o trabalho. “Eles poderiam ter feito isso de maneira irresponsável, mas houve cuidado na abordagem dos fatos e todas as situações foram tratadas com muita prudência. Não à toa, receberam milhares de colaborações”, afirma o professor.

Também influenciou no processo de aprendizagem, segundo D’Andréa, o caracter não institucional sob o qual o #BHNASRUAS foi criado. “Em nenhum momento o projeto foi atrelado diretamente à universidade. Houve, por um minuto apenas, a ideia de transformá-lo em um projeto oficial, mas logo descartamos a ideia, pois, ele perderia muito”, comenta o professor.

Agora, a ideia do grupo é continuar com o projeto. “Temos como pressuposto que as ruas de BH não morrem e mesmo que o fôlego diminua, sempre haverá ocupações e pequenos protestos na cidade para serem divulgados”, afirma Camila.

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