Pequenos gigantes

iG Minas Gerais |

Me sentei na arquibancada de cimento surrado. Procurei um lugar que não estivesse tão sujo para me ajeitar. E comecei a observar. No campo de terra batida, onde a poeira sobe forte, estavam os meninos. Muitos. Brasileirinhos. Tão jovens e já tão batalhadores. Classes sociais diferentes. Histórias distintas. Naquela noite, os pés pela várzea. Em outros dias, estariam em bons campos, em quadras de salão ou grama sintética, quem sabe. Jogam onde for. Querem bola na rede. São ávidos por futebol.  Nenhum dos garotos vestia camisa amarela, embora bastasse um mero olhar para perceber que a desejam imensamente. De preferência, com seis estrelas no peito. Atraída pelo atrevimento e pela ousadia, a maioria dos moleques quer ser Neymar. Mas tem idolatria de sobra pro Bernard, David Luiz, Thiago Silva, Fred, Victor, Willian, Fernandinho, Oscar e companhia limitada. Idolatria que cresce em tempos de Copa. Na verdade, infla. Os garotos nunca viram o Brasil levantar o caneco. Meninos com fome de vitória e vontade de vencer. Dali, daquela arquibancada, eu olhava para cada um dos meninos em campo. Sabia que um deles jogava com a chuteira que outro já não usa mais. Aproveitou sem qualquer problema. Sabe que a mãe não pode pagar o preço daquela marca esportiva. Sabe que pelo mesmo motivo ele não está em uma escola particular. O menino vai usar a chuteira até furar e, mesmo que isso aconteça, seguirá com seus dribles incríveis – que dão a ele ares de gente grande. E que Deus proteja aquele gingado!  Correndo perto dele, o outro garoto segue. E como corre o danadinho miúdo! Desliza. Às vezes, parece voar. Gel no cabelo. Blusa de marca e chuteiras da moda. Estuda numa escola privada e, no último ano, foi para a Europa participar de um campeonato. Conhece os jogadores <CW-9>dos times estrangeiros, vê as partidas internacionais na TV a cabo. Faz treinamentos individuais. Neste sábado, estará no Mineirão. Vai ver os ídolos de perto pela primeira vez num dia que, certamente, ficará marcado para sempre na memória afetiva. O amigo dele – companheiro do time amador – estará com os olhos colados na televisão. Vai vibrar com cada lance dos seus e heróis e, claro, tentar ver o amigo no meio da torcida verde-amarela.  Ao contrário do que muita gente pensa, o abismo social não divide os dois meninos. Têm muito em comum. O caminho para o gol, o carinho com a bola são semelhanças indiscutíveis. Os dois amigos não estão sozinhos entre milhares de apaixonados – garotos que, como eles, querem mais do que apenas bater uma bolinha no fim de semana. Defender um clube, defender o país é a busca comum e tão intensa pra gente de tão pouca idade.  Amanhã Belo Horizonte vai viver um dia histórico. Terá destaque nos olhares do mundo. O nacionalismo vai pulsar no jogo mais importante já recebido pelo Mineirão. No meio de tanta grandeza, se eu pudesse pedir algo aos garotos crescidos do Felipão, certamente diria: “Joguem pelos pequenos, pelos brasileirinhos. Joguem pelos apaixonados que sonham em ser vocês. Joguem pelos que – com disciplina e talento – treinam todos os dias para alcançar seus dribles, suas defesas, seus cruzamentos. Joguem pelos amigos deles – que não querem se profissionalizar, mas estão nas quadras dos prédios, na rua, nos clubes e nas escolinhas – movidos pela alegria da coletividade que o futebol proporciona. Joguem pelos Lucas, pelos Joões, pelos Iltons, pelos Andrés, pelos Pedros, pelos Arthurs, pelos Eduardos, pelos Brunos, pelos Bernardos, pelos Gustavos, pelos Thiagos... Joguem pelas crianças que nunca viram o Brasil vencer. Joguem! 

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