É possível construir uma Argentina todo dia?

iG Minas Gerais |

Como procuramos fazer todo ano, minha mulher e eu temos o costume de passar o meu aniversário em Buenos Aires. Coisa estranha nos encanta: entra ano, sai ano, e a cidade não muda o prazer que parece sentir em receber o visitante. Orgulho de ser como é? Certo é que nos recebe, no princípio de junho, sem mudar o seu jeito de ser, de recepcionar, de mostrar o eterno bairro da Recoleta com o bom gosto da sua silhueta arquitetônica inspirada em traços europeus, particularmente parisienses, buscados nas linhas do III Império, nas obras belíssimas do barão de Hausmann, com as suas ruas largas, amplas avenidas rasgando parques intensamente arborizados, planos e hospitaleiros, um convite generoso a longos e agradáveis passeios, sob o céu generoso de um azul infinito, o sol gostoso e modorrento de uma temperatura amena e suave, tudo a nos embalar corações e mentes, como se do dia radiosamente claro nos viesse o convite para nos banhar nas águas calmas do Plata. Em ambiente desses é quase impossível evocar a presença do mal. Contudo, estando este em todo lugar, vem-me à memória a lembrança de um artigo lido recentemente, escrito pelo economista Samuel Pessôa, da FGV, sob o título “Uma Argentina se constrói a cada dia”. No passado, o país se lançou a uma construção ousada e aflita, sob a liderança do grande escritor e presidente Domingo Sarmiento, logo após a promulgação da Constituição de 1853. Estabilizada a nação, partiu-se para a edificação fundada sobre reformas tão eficazes que, já na primeira década do século seguinte, se inscrevia ela entre as dez maiores economias do mundo, graças, sobretudo, a um sistema educacional que, nos fundamentos, sobrevive até hoje. A partir dos anos 1930, a intromissão militar e o populismo demagógico funcionaram como uma espécie de pacto com o diabo para derrubar tudo, chegando ao estado caótico de, a cada dia, construir-se nova Argentina, sempre e cada vez pior que a anterior. É exatamente o que teme o articulista. O receio, na forma de certeza angustiante de que o Brasil, se o lulopetismo sagrar-se vitorioso em outubro próximo, será empurrado para a esfera econômica da desorganização, dobrando-se a aposta do que o governo tem feito temerariamente, é aterrador porque real. O próprio Pessôa esclarece: “Dobrar a aposta significa continuar a tolerar a inflação acima da meta, não refazer o superávit primário, manter a inconsistência na política econômica, com juros elevados, e, simultaneamente, a política creditícia muito expansionista dos bancos”. Além de citar os perigos na esfera microeconômica, reforça com uma afirmação incontestável para nós, brasileiros, que, anos a fio, sofremos com a praga dolorosa de um processo inflacionário diabólico, cujas características levavam ao desespero, pois pareciam sem fim e invencíveis. Quem se descuidar diante dessa ameaça, pelo esquecimento fatal do nosso sofrimento, estará no caminho da construção “de uma Argentina a cada dia”. Ai, meu Deus!

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