Cerco da PM a manifestantes pode virar guerra de liminares

Caso Estado recorra de decisão que vetou tática da PM, movimentos também recorrerão

iG Minas Gerais | Bruna Carmona / Laura Zschaber |

Pressão. Policiais usaram tática, agora proibida, de manter manifestantes completamente cercados para conter movimento e violência
GUSTAVO BAXTER / O TEMPO
Pressão. Policiais usaram tática, agora proibida, de manter manifestantes completamente cercados para conter movimento e violência

A forma de atuação da polícia durante os protestos antiCopa ocorridos em Belo Horizonte pode se tornar objeto de uma disputa judicial nos próximos dias. Após ser notificado pelo Poder Judiciário sobre a liminar que proíbe o cerco a manifestantes durante os atos na capital, o governo do Estado afirmou, em nota, que a Advocacia Geral do Estado deve decidir hoje se recorre da ação.

Caso o governo decida recorrer, os manifestantes prometem uma resposta. “Já sabemos da intenção do governo de recorrer da decisão, e os movimentos também devem recorrer, caso isso aconteça”, diz Isabella Miranda, integrante do Comitê Popular dos Atingidos pela Copa e das Brigadas Populares. Para ela, a decisão da Justiça é uma vitória dos movimentos populares de Belo Horizonte, já que o cercamento policial é considerado um “símbolo de privatização do espaço público”. Representantes de vários movimentos contra o Mundial se reuniram para definir a próxima manifestação, prevista para sábado. “O trajeto e horário do próximo protesto ainda não estão definidos, mas será claramente um ato de retomar o espaço de expressão política dentro da cidade e de contestar a violência policial. É importante reafirmar o direito de manifestação”, afirma Isabella. Segundo ela, os protestos diminuíram na cidade por causa do terrorismo que foi feito no período pré-Copa. Discussão. A liminar concedida pelo juiz Ronaldo Claret de Moraes na última segunda-feira não agradou aos internautas de O TEMPO. Em enquete realizada pelo portal www.otempo.com.br ontem, 79,3% dos leitores disseram que são contra a decisão da Justiça de limitar a ação da polícia. “Nós construímos uma ideia no Brasil, que vem do regime militar, de que a ordem tem a ver com passividade”, diz o sociólogo e cientista político Rudá Ricci. Para ele, a liminar serve para abrir o debate sobre a forma de manifestar e a ação da polícia. “A PM está universalizando uma tática que é, na verdade, direcionada a um grupo muito pequeno”, diz o sociólogo, em referência aos manifestantes do movimento Black Bloc. Para Ricci, a PM ainda não encontrou o caminho para dialogar com esse grupo. O especialista lembra que o cerco, do ponto de vista do contato direto com os manifestantes, foi muito menos lesivo. “Existe aqui uma situação constrangedora.Como você garante a segurança da cidade numa situação de delapidação do patrimônio público ou privado e ao mesmo tempo garante o direito civil da manifestação?”, questiona.

Caldeirão Sem saída. Em 1986, policiais alemães cercaram por 13 horas, em Hamburgo, 800 manifestantes, deixando-os sem comida e água e dando origem à tática ‘Caldeirão de Hamburgo’, hoje proibida na Alemanha.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave