Entre a tranquila Copa do Mundo e a orgiástica “Copa dos Partidos”

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DUKE
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Na charge do Duke, em O TEMPO de anteontem, um astrônomo diz à sua auxiliar (ou à companheira), em seu observatório, que está apenas pesquisando “pra saber se existe vida fora da Copa”. Uma lição importante e oportuna que nos deu de graça o chargista. Não há dúvida de que o futebol, como qualquer esporte, é essencial na formação de qualquer ser humano, mas não é tudo, como desejam os torcedores fanáticos (se é que existe no mundo algum que não o seja). O futebol, que movimenta, aqui e fora daqui, um submundo às vezes asqueroso, talvez seja a coisa mais importante dentre as coisas menos importantes.

O esporte bretão, aqui (e fora daqui), que convive com injustiças e encobre negócios escusos, vem servindo, e serve mais ainda hoje, para nos distanciar da nossa dura e cruel realidade. Mas bem que poderia nos ajudar a refletir, também, sobre nosso preocupante futuro. Concordo, em parte, com o que disse a jornalista Eliane Cantanhêde, em sua coluna na “Folha de S.Paulo”: “A tragédia anunciada reverte para uma boa Copa”. Houve, sim, flagrante exagero da parte da imprensa dita nacional ao utilizar, diariamente, e de maneira mordaz, a exclamação “Imagine na Copa!”. Forçaram a barra, diriam alguns, quando quiseram nos convencer de que futebol e política são farinha do mesmo saco, que sempre se misturam. Ledo engano. Embora não seja o ideal, o futebol pode ser, quando muito, mais um manancial de políticos, como vem ocorrendo em nosso país. O Rio de Janeiro, por exemplo, poderá eleger senador o ex-jogador Romário, que, mesmo criticando o governo do PT, se juntou ao seu pré-candidato ao governo, Lindbergh Farias. Apesar da falta de urbanidade de alguns torcedores (estrangeiros e brasileiros), que transformaram a Savassi numa latrina pública, a Copa do Mundo, por enquanto, vai indo tão bem que o juízo sobre as obras inacabadas e/ou superfaturadas e a incompetência do governo ficou para depois. Nem por isso, com certeza, foi descartada a “Copa dos Partidos”, programada para transcorrer entre os dias 13 de julho (quando ocorrerá o final da Copa) e 5 de outubro (quando ocorrerão as eleições). Em razão dessa outra disputa, uma frase atribuída ao ex-presidente Tancredo Neves retornou aos nossos principais noticiários: “A expectativa do poder futuro tem um magnetismo maior do que o poder presente”. Ela está sendo utilizada, de forma oculta ou não, por três pré-candidatos à Presidência da República, Dilma, Aécio e Eduardo, mas, sobretudo, pelo pré-candidato do PSDB. Este, ao se utilizar do magnetismo do poder futuro para compor as alianças que têm sido concretizadas, ainda põe em prática outro ensinamento do avô, contido nesta frase usada na época em que disputava, por via indireta, a Presidência da República: “Fico mais feliz quando consigo um acordo entre partes contrárias do que quando venço um adversário nas urnas”. A pregação (ingênua?) de Marina Silva, candidata a vice-presidente na chapa do pré-candidato do PSB, Eduardo Campos, em favor de uma aliança (com outros partidos) programática e não só pragmática, além de não ter obtido o sucesso por ela esperado, tende a comprometer, até mesmo no futuro, o candidato que sua Rede apoiou. Não se faz omelete sem quebrar ovos, nem se pratica política fora do contexto, dizem os pragmáticos. Todavia, que o futebol e as eleições sirvam, em 2015, como forte pretexto para uma reflexão profunda sobre os destinos do nosso país. É nisso que confiamos. Oxalá!

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