Paralelos

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A eleição presidencial deste ano guarda similaridades com o pleito de 2002, quando o PT conseguiu chegar ao Planalto. Naquele ano, a segunda gestão de Fernando Henrique Cardos chegava ao fim desgastada pelos efeitos da crise cambial de 1999 e o racionamento de energia em 2001. As medidas tomadas pelo governo, sobretudo na área econômica, eram vistas com desconfiança pelo setor produtivo. Entre os principais candidatos naquela disputa – José Serra (PSDB), Ciro Gomes (PPS), Anthony Garotinho (PSB) –, foi Lula (PT) quem conseguiu capitalizar e simbolizar parte de um desejo de mudança, principalmente por escolher um empresário – José Alencar (PL) – para o cargo de vice e divulgar a “Carta aos Brasileiros” – documento no qual se comprometia a não fazer mudanças na economia. Hoje, o governo Dilma passou por crises econômicas internacionais com mais “jogo de cintura”, há um risco de falta de energia (não assumido pelo governo, embora os níveis das hidrelétricas estejam baixos), e o setor produtivo reclama da perda de competitividade para os produtos importados, sobretudo chineses, o que levaria a indústria nacional a um nocaute. Sem contar a falta de diálogo com a gestão da petista. Dilma tentou uma reaproximação na última semana, lançando um pacote de incentivos para o setor. Agora, Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB) tentam fazer o que Lula fez: simbolizar a “mudança” que levaria o país a um novo ciclo de confiança e investimento. Outro ponto interessante são as alianças partidárias. Em 2002, o PMDB fazia parte do governo FHC e decidiu apoiar a candidatura de Serra, indicando a deputada federal Rita Camata (ES) como sua vice. Parte da sigla não concordou com a decisão da cúpula, e dissidentes apoiaram Lula e Ciro. O mesmo acontece hoje, com diretórios estaduais e se sentindo “livres” para apoiar Aécio e Campos. Hoje o PTB vai apoiar o PSDB, depois de anos aliado ao PT. Em 2002, o então PFL (atual DEM) tentou lançar candidatura própria com Roseana Sarney, mas a intenção foi abortada após operação da Polícia Federal que apreendeu uma montanha de dinheiro na empresa do marido de Roseana. Ela desistiu, o clã Sarney se bandeou para o lado de Lula, e o PFL apoiou Serra, com dissidentes não fazendo campanha para o tucano. Embora o PTB tenha virado as costas para Dilma, a sigla mantém aliança com o PT em nove Estados... As regras eleitorais não coíbem essa “sopa de letrinhas” pelo país. E quem poderia mudá-las não tem o menor interesse nisso. Esse “clima” de insatisfação lembra um pouco 2002, mas não é igual. O país mudou muito de lá para cá: criou mais oportunidades, e mais pessoas cientes de seus direitos reivindicam melhorias nos serviços públicos. Talvez esteja aí esse “desejo” aparente por mudanças, que vieram nas manifestações de 2013 e levaram a aprovação da gestão Dilma próxima dos 30%. Em outubro de 2002, o índice de aprovação de FHC, apurado pelo DataFolha, era de apenas 23%. Olhar para o passado para tentar entender o presente e esboçar o futuro é apenas um exercício, sábio, mas não garante a repetição dos fatos. Humberto Santos escreve interinamente a coluna de Murilo Rocha

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