Uma antiga frequência de casa

Cantor resgata a relação com o rádio em “Pássaros Urbanos”, que tem Michael Sullivan e Zeca Baleiro entre os parceiros

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Processo. Fagner começou a escrever as canções de “Pássaros Urbanos” há dois anos e estreia turnê em agosto, no Rio de Janeiro
(416) Julien Pereira / Fotoarena
Processo. Fagner começou a escrever as canções de “Pássaros Urbanos” há dois anos e estreia turnê em agosto, no Rio de Janeiro

Desde pequenininho, Raimundo Fagner Cândido Lopes entende o domingo como sinônimo de sintonizar a programação aleatória do rádio, apreciando de Jovem Guarda a bolero. “Era a melhor coisa do mundo ouvir as vozes e imaginar os rostos”, lembra o cantor de 64 anos, que ganhou seu primeiro concurso no rádio aos 6 anos. Não à toa, ao longo da carreira ele se tornou um sucesso radiofônico que sabe transitar com sobriedade da MPB ao brega, passeando de Sullivan a Belchior.

Nesse sentido, “Pássaros Urbanos” (Sony Music), 37º álbum de Fagner, chega agora às lojas para homenagear os 40 anos de carreira do cantor cearense completados ano passado, reunindo canções que pretendem grudar nas frequências FM do país.

Apesar de sentir vontade de fazer a estreia da turnê em Belo Horizonte, Fagner deverá abrir a série de shows do álbum no início de agosto, no Rio de Janeiro, por problemas de logística – ele chega com o show na capital mineira apenas em setembro. “BH tem a maior parte do meu público de rádio, fidelizada com meu som há mais de 20, 30 anos, por isso o segundo show será aí em uma casa a ser definida”, justifica.

Um dos maiores responsáveis pela retomada de Fagner ao romantismo de rádio é Michael Sullivan, que teve a ideia de misturar estilos musicais diferentes no novo disco, como uma homenagem ao primeiro álbum de Fagner, “Manera Fru Fru Manera” (1973). Foi ele quem ouviu as primeiras canções gravadas pelo amigo e conterrâneo ainda em 2011, no estúdio que Fagner mantém à beira-mar, em Fortaleza, e acabou se tornando produtor do novo disco. “Ele disse que o disco tinha que tocar na rádio, quando apresentei as duas primeiras músicas, ‘Se o Amor Vier’ e ‘Balada Fingida’. Aí me rendi às origens que me projetaram há quatro décadas porque achei interessante essa espécie de homenagem à minha relação com o rádio, a coisa de buscar um rock, um samba, um baião, tudo misturado, como meu primeiro disco que chegou às lojas na década de 70”, diz.

Não por acaso, das 11 faixas do álbum, oito têm arranjos do compositor Michael Sullivan, que explora desde o romantismo de violões, pianos e metais, até a o groove de guitarras sutis que caem bem em qualquer estação de música popular. “A ideia era marcar o disco todo com baladas pop, por isso eu quis trazer parceiros que têm essa capacidade”, atesta Fagner.

Dessa forma, “Pássaros Urbanos” traz apenas três releituras, incluindo “Paralelas”, de Belchior, além de nove letras inéditas de amigos de Fagner, que parecem assimilar sem dificuldade a proposta do cantor cearense em falar de amores contemporâneos, mas procurando raízes, explicações e sentidos musicais sempre no sertão nordestino, influência da infância vivida em Orós, no interior do Ceará.

Logo na faixa de abertura, “Se o Amor Vier”, a parceria mais radiofônica com Clodo Ferreira dá o recado claro: “Você sabe de onde eu vim”, como se Fagner dispensasse justificativas.

As outras misturas sonoras do disco ficam por conta de Zeca Baleiro, que marca versos e empresta sua guitarra no rock “Toda Luz”, além de acrescentar a poesia e a batida do pandeiro em “Samba Nordestino”. Longe do mundo contemporâneo, Fausto Nilo parece cortejar moças da década de 20 nas quatro canções que assina no álbum, como “Arranha-céu”, lembrando a pegada brega de Waldick Soriano (“não bastam palavras novas / melodias radiosas para ferir um rouxinol (..) e a saudade, essa cachorra, quer que eu mate, quer que eu morra”).

LÍBANO. Além da turnê que deve estrear em agosto, Fagner também se prepara para gravar entre os dias 28 e 30 de julho um DVD ao lado de Zé Ramalho, no Rio. Porém, é um trabalho inédito dedicado ao Líbano, terra natal de seu pai, José Fares Haddad Lupus, que tem tirado o sono do cantor. “Nunca tive vontade de ir ao Líbano porque meu pai contava as dores, os pesadelos e o fato de ter visto o meu avó morrer na guerra. Mas agora é diferente e quero fazer uma homenagem”, diz.

O álbum será feito no mesmo formato de “Traduzir-se” (1981), quando o cantor gravou canções em espanhol. Para isso, Fagner pretender passar dez dias no Líbano, entre setembro e outubro, assistindo a shows de artistas locais e selecionando todo o repertório em libanês e português.

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