Sem firulas, muito menos purpurina

Longa adapta hit da Broadway sobre história real de músico norte-americano

iG Minas Gerais | Daniel oliveira |

Desconhecidos. Eastwood optou por trabalhar com atores que haviam vivido os papéis na Broadway
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Desconhecidos. Eastwood optou por trabalhar com atores que haviam vivido os papéis na Broadway

Mesmo em seus piores deslizes, como os recentes “J. Edgar” e “Além da Vida”, Clint Eastwood é daqueles cineastas de estilo inconfundível. Sua câmera sóbria e sua decupagem econômica e direta podem nem sempre ser a melhor opção para as histórias que ele conta, mas fazem dele um paradoxo quase único: um autor que não quer chamar atenção para seu trabalho.

“Jersey Boys: Em Busca da Música” é o resultado do cabo de guerra entre esse estilo e um material que parece o tempo todo pedir uma abordagem diametralmente oposta. Pense no filme como “Dreamgirls”, se ele tivesse sido dirigido pelo homem por trás de “Os Imperdoáveis”.

Adaptado de um dos maiores hits recentes na Broadway, “Jersey Boys” conta a história real do grupo musical Frankie Valli and the Four Seasons. A história, que atravessa as décadas de 50 e 60, acompanha o envolvimento com a máfia ítalo-americana, o sucesso e o desfacelamento da banda, seguido pela carreira solo de Valli (John Lloyd Young) e culminando no lançamento de seu maior hit, a antológica “Can’t Take my Eyes off of You”.

Mas a mutação no DNA que torna o longa tão intrigante é que, apesar de suas origens e da própria história, a produção não é um musical. Ela é um filme com música. Mesmo os maiores detratores dos exageros e floreios do gênero vão reconhecer que certos momentos de “Jersey Boys” pedem uma purpurina, uma “gracinha”, como os agudos de Valli – uma explosão, típica do musical. E o diretor não está disposto a lhe conceder isso.

Eastwood não é um cineasta que filma pulsando sua câmera com a batida do coração. Ele é dos que simplesmente observam com os olhos do realismo, mais interessado no ritmo da própria vida do que em impor o seu a ela.

E é nessa vida que ele alicerça seu filme. O diretor está bem menos fascinado pelos bastidores e o glamour do showbiz do que por como o The Four Seasons ao mesmo tempo ergueu e destruiu a vida de Frankie Valli. É essa a história que interessa a Eastwood – e que ele conta com competência.

O roteiro de Marshall Brickman (que co-escreveu “Manhattan” com Woody Allen) conta com ótimos diálogos e uma estrutura clássica. Os depoimentos em que os personagens quebram a quarta parede e se dirigem ao espectador permitem alternar entre pontos de vista da narrativa e são usados com parcimônia. E os cenários e as cidades cenográficas são usadas pelo cineasta como uma forma de tornar a produção mais barata, ao mesmo tempo em que referencia o estilo dos filmes da época.

Mas ao fazer de “Jersey Boys” um filme, e não um musical, Eastwood é vítima de uma deficiência dessa mesma história: o fato de que Frankie Valli é um protagonista bem menos interessante do que o entorno que o cerca.

O coração pulsante do longa são os conflitos e os choques de personalidade entre os quatro membros do Four Seasons – e como isso dá vida a uma produção musical única e a um caldeirão de convivência nocivo. E quando o grupo chega ao fim e a história se foca exclusivamente em Valli, o ator John Lloyd Young (que veio do musical da Broadway, como a maioria do elenco) não tem o carisma necessário para segurar o rojão e a energia da produção cai vertiginosamente.

Com isso, mesmo não estando entre os trabalhos mais fracos do diretor, “Jersey Boys” é um filme que nunca explode. Por transitar nos círculos da máfia ítalo-americana, e até contar com o ator Joe Pesci como um dos personagens, o longa parece em alguns momentos pedir por Martin Scorsese na direção – uma câmera que flua em longos travellings, uma decupagem mais fluida que siga o ritmo da música, e não da história. Mesmo na sequência de “Can’t Take my Eyes off of You”, ele se recusa a firular, focando sua câmera na emoção do rosto de Valli.

O que não é um erro. É uma escolha narrativa coerente. Clint Eastwood faz um filme de Eastwood, e não um musical da Broadway. E ele tem tanta consciência disso que, nos créditos finais, brinca com esse longa purpurinado que não fez.

Pré-Beatles Considerado o grupo de pop rock mais famoso nos EUA antes da chegada dos Beatles, o Frankie Valli and the Four Seasons estourou em 1962 com o hit “Sherry”. No seu auge nos anos 1960, eles venderam mais de 100 milhões de álbuns. O grupo foi consagrado no Rock and Roll Hall of Fame em 1990.

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