O homem é o lagarto de si

Maldita Companhia de Investigação Teatral estreia espetáculo inspirado em conto do uruguaio Eduardo Galeano

iG Minas Gerais | gustavo rocha |

Pesquisa. Coletivo, que completa 10 anos, centra seu trabalho em um eixo épico-dramático
FERNANDO BARCELLOS DIVULGAÇÃO
Pesquisa. Coletivo, que completa 10 anos, centra seu trabalho em um eixo épico-dramático

Ao buscar a surreal história de um sujeito – metade homem, metade lagarto – que come suas mulheres, a Maldita Companhia de Investigação Teatral espera versar sobre a condição e as relações do homem para se aproximar dos dias vividos hoje. Inspirado no conto “História do Lagarto que Tinha o Costume de Jantar Suas Mulheres”, do uruguaio Eduardo Galeano, o espetáculo “Maxilar Viril” estreia nesta quinta, no teatro Oi Futuro Klauss Vianna.

“Desde 2004, eu comecei a escrever esse texto, dentro das características de nossa pesquisa épico-dramática. Ou seja, parte narrativa, parte compondo os personagens”, ressalta Amaury Borges, diretor do espetáculo.

“Maxilar Viril” evidencia a narrativa da existência extrema e solitária de apenas dois seres no mundo, um homem e uma mulher. Diferente do mito da gênese bíblica judaico-cristã (Eva e Adão), conta sobre a presença “ilhada” de um filho meio homem, meio lagarto e sua mãe protetora como os últimos da espécie. Os demais personagens da peça são as memórias que revelam ausências e onipresenças, como a figura do pai morto, as noivas, o parteiro, a comunidade e os próprios espectadores incluídos na dramaturgia.

Acostumada a espaços alternativos – o grupo já se abrigou na Gruta durante um tempo, espaço que nesta quinta recebe festas, próximo no Galpão Cine Horto, por um bom tempo –, estar em um teatro convencional, com palco “à italiana”, representou uma desafio para a Maldita. “Vamos ocupar esse espaço dentro do teatro de uma maneira diferente, explorando algumas coisas. Não acredito nessa história do público assistir passivamente a uma representação. O teatro deve ser a arte do encontro do público e artistas. Existe uma estrutura pronta, mas certamente há uma influência dos lugares onde nos apresentamos”, ressalta Borges.

Com 10 anos de vida e na contra-corrente de boa parte dos coletivos de teatro que emerge em processos criativos anuais, ou com uma frequência de um novo trabalho a cada dois anos, a Maldita matura seus processos. Não à toa, esse é apenas o seu terceiro espetáculo. No currículo, apenas “Casa de Misericórdias (2003) e “Cara Preta” (2007). “Acreditamos que o teatro seja um trabalho de artesania”, destaca Borges. “Gostaríamos de ter mais processos continuados, nossa realidade sociocultural em termos financeiros é muito parecida com outros grupos. Também tivemos dois anos que demos uma parada para rever relações e pensar que tipo de teatro é possível nessa sociedade do espetáculo”, revela ele.

O fechamento do teatro Oi Futuro Klauss, que pertence ao Tribunal de Justiça do Estado, até setembro de 2014 também mobiliza o grupo. “Aqui no Oi Futuro, a gente está reivindicando que as pessoas venham para falar sobre esse possível fechamento do teatro e debater sobre esse espaço que é tão importante para a cidade e que está em vias de ser fechado”, finaliza Borges.

Agenda

O quê. “Maxilar Viril”

Quando. Desta quinta até 6/7. Quinta a sábado, às 21h, e domingo, às 19h.

Onde. Teatro Oi Futuro Klauss Vianna (avenida Afonso Pena, 4.001, Mangabeiras)

Quanto. R$ 10 e R$ 5 (meia-entrada)

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