Guia do governo aconselha turistas a não fazerem tatuagens e piercings

No guia de saúde distribuído aos turistas, o conselho para evitar tatuagens e piercings é colocado juntamente ao de não compartilhar seringas

iG Minas Gerais | JOSÉ VÍTOR CAMILO |

Alguns tatuadores consideraram o alerta preconceituoso
Reprodução/Facebook
Alguns tatuadores consideraram o alerta preconceituoso

Um guia distribuído aos turistas pelo Governo de Minas está revoltando alguns tatuadores de Belo Horizonte, que acreditam que estão sendo prejudicados pela medida. Entre as recomendações para a saúde dos estrangeiros, está o aviso "evite fazer tatuagem e colocar piercings, e não compartilhe seringas".  A imagem do guia foi compartilhada nesta quarta-feira (25) nas redes sociais por alguns tatuadores, que viram o alerta como preconceituoso.

Entre os que se revoltaram está Ana Laura Mendes de Oliveira, de 23 anos, que é uma das proprietárias do estúdio Old Lines Tattoo Shop, localizado na Savassi, na região Centro-Sul da capital. "O movimento já caiu bastante na Copa, por que fica de frente para a bagunça. A gente paga impostos e a forma como foi exposto no guia foi criminosa. Nós contribuímos com as obras da Savassi e também temos direito de lucrar com o evento", afirmou a jovem, que tatua há 5 anos.

Para ela,o alerta deveria ser para procurarem estúdios licenciados. "Eles deveriam ter escrito que tem muitos estúdios não regularizados e, por isso, antes de fazer tatuagens ou piercings os turistas deveriam procurar um estúdio regularizado ou que pedissem para ver a licença, e que observassem o espaço, os trabalhos dos profissionais e se certificarem das condições higiênicas", disse Ana Laura.

Assustada com a recomendação, a tatuadora chegou a procurar a Vigilância Sanitária do Estado. "Me informaram que esta cartilha não teria passado por eles e pediram para eu enviar a imagem do guia, que eles irão apurar. Tomara que consigam consertar isso de alguma forma", contou.

Renata Espinelly, de 27 anos, é tatuadora há quatro anos e também vê com maus olhos o guia distribuído. "Não seria problema alertar para tomar cuidado, procurar um profissional, mas desta forma eles descriminam todos os tatuadores. A gente tem registro na prefeitura, na Vigilância Sanitária, não é uma coisa fácil de conseguir", defendeu.

Os estúdios regularizados utilizam materiais seguros, com agulhas e biqueiras da máquina de tatuagem descartáveis, além de tinta estéril, tudo autorizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

"Seguimos tudo direitinho e eles distribuem isso? Chegamos a tatuar turistas, mas quando apareceu isso eu pensei que pode ter influenciado. E o pior de tudo é que ficamos abertos e vendo a bagunça, pessoa mijando na porta da nossa loja. Até chegamos a pedir para o povo não fazer bagunça na porta, por estarmos trabalhando", finalizou Renata.

Procurado para se posicionar sobre o porquê da recomendação, o Governo de Minas informou que  o “Guia Segurança e Saúde”, distribuído a turistas que visitam Belo Horizonte no período da Copa do Mundo da Fifa, foi elaborado com base em recomendações internacionais e obedece os mesmos critérios utilizados pelo Centro de Controle de Doenças e Prevenção dos Estados Unidos.

"O objetivo do guia não foi, em momento algum, discriminar qualquer seguimento de serviço, mas única e exclusivamente o de alertar os turistas sobre os cuidados que deveriam observar para preservar sua saúde e segurança durante a sua breve estadia em Minas Gerais", dizia a nota encaminhada.

Ainda de acordo com o Governo de Minas, as recomendações do Guia levam em consideração o fato de turistas que viajam para acompanhar um evento como a Copa permanecerem poucos dias em cada cidade visitada, o que dificultaria que eles tomassem conhecimento dos locais que obedecem as normas brasileiras de vigilância sanitária. 

Anvisa

Procurada por O TEMPO, a Anvisa informou que os governos estaduais e municipais são responsáveis pela regularização de estúdios de tatuagem, sendo que o órgão analisa apenas produtos relacionados, como as tintas para tatuagens. Atualmente, um total de 13 marcas de tintas estão suspensas pela agência. Somente três marcas são autorizadas no País: Starbrite Colors, Electric Ink e Iron Works.

A partir desta determinação, as Vigilâncias Sanitárias dos estados e municípios foram orientadas a apreender e inutilizar as unidades destas tintas encontradas no mercado. Uma outra tinta usada por alguns tatuadores, denominada Indian Ink, foi proibida pelo órgão por ser destinada a atividades como caligrafia e desenho.