Manhas e manias

iG Minas Gerais |

Na arena eleitoral, as batalhas se acirram com a entronização dos candidatos nas convenções partidárias. As estocadas recíprocas se revestem de surpreendente e contundente expressão, a revelar que o pleito antecipado já mostra ser o mais virulento da contemporaneidade. Trata-se, afinal, não apenas de uma guerra entre três candidatos competitivos, mas de uma luta esganiçada pela continuidade ou mudança de rumos na condução do país. Enquanto os contendores se engalfinham, os torcedores se comprazem, confraternizando-se com torcidas estrangeiras. Essa, aliás, é a primeira explicação para apupos às autoridades nos eventos esportivos. A massa abomina misturar política, futebol e religião. Sabe guardar cada coisa em seu lugar. O distanciamento entre a sociedade e a esfera política é um fenômeno real que pode ser avaliado por muitos instrumentos: índice de abstenção, votos nulos e brancos (ultrapassando hoje a casa dos 30%) e um desinteresse geral pela eleição (em torno dos 50%). Como atrair o interesse de eleitores de todas as faixas? Eis o nó da questão. No plano dos discursos, o PT se esforça para dar credibilidade a um escopo ideológico que ainda causa receio a parcela ponderável do eleitorado. É um partido que enxerga, muito assustado, a corrosão de sua identidade, que era a mais confiável há 20 anos. Por isso, Lula resgata o velho axioma de guerra: “a melhor defesa é o ataque”. Ataque contra a imprensa; contra as elites; contra quem cospe no prato em que comeu; contra o ex-presidente FHC. O tiroteio tem o mérito de fazer recuar exércitos adversários, obrigando-os à defesa. O ódio faz parte da estratégia lulista, quando procura resgatar a polarização entre petistas e tucanos, identificando os primeiros com os ricos e os segundos com os pobres. A questão, porém, é mais complexa. Os habitantes do meio da pirâmide e parcelas das bordas já estão vacinados contra os refrãos carcomidos pela poeira do tempo. O slogan das ruas é outro: “mais e melhores serviços públicos”. Não acreditam que estatutos como o Bolsa Família serão extintos, qualquer que seja o futuro presidente. Aos tucanos, por sua vez, interessa acender a tocha da polarização, crentes de suas chances no pleito deste ano. Depois de ter brilhado na constelação da ética, o PT aparece nas pesquisas como o ente que mais encarna o vírus da corrupção. Mesmo assim, aposta na dualidade “nós e eles”, o bem e o mal. E continua a desprezar os parceiros partidários da aliança governista, alargando seu império na administração federal. Nessa toada, a campanha eleitoral, já começada, se cerca de grandes interrogações. A aposta maior é a de que os rumos finais serão ditados pelo andar da carruagem econômica. As manias e manhas que marcam as práticas eleitorais e o marketing começam a se disseminar com o fito de projetar imagens positivas e negativas para uns e outros. O eleitor continua arredio. Sua visão se concentra nas arenas esportivas, e não nas praças da guerra eleitoral. Uma certeza é cristalina: o clima de 2014 é bem diferente da temperatura de 2010. Estreita-se o espaço da mistificação.

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