Nunca tinha visto uma Copa assim!

iG Minas Gerais |

Recordo-me, vagamente é claro, da decepção na Copa de 1950: Papai – que diziam ter sido a seu tempo um senhor jogador de futebol – até me ensinou a cantar “Touradas de Madri”. Depois, deixou de falar daquilo, até todos os nomes feios que ouvi, já morando em Santa Luzia, quando um tal Puskas infernizou a vida dos brasileiros. Quatro a dois. Nessas horas, escusado dizer, todos nós, meninos, nos escondíamos onde podíamos, até esperar passar a fúria que tomava conta de meu velho pai. Mamãe suava em bicas, amassava broas e biscoitos para que a trabalheira na cozinha a afastasse do olho do furacão. Veio 1958, e nem sequer me recordo da alegria de todos nós. Em 1962 eu já morava em Belo Horizonte, trabalhando para ajudar a pagar a escola dos irmãos mais novos, e morria de amores por Didi e Garrincha. (Certa vez, voltando de Cabo Frio, aporrinhei meu marido para pegar um atalho de tal maneira que eu visse, nem que fosse de longe, a pequenina Pau Grande, terra natal do craque, motivo de música cantada por Elza Soares com uma rima impublicável...). Em 1970, meu pai já havia morrido, e eu esperava meu último filho. Até tomei um gole de uísque, passado por um rapaz da janela do carro dele para o nosso, comemorando o sonhado tricampeonato. De lá pra cá, fui colecionando alegrias e decepções, nessa gangorra do coração em que vivem os brasileiros que, como Nelson Rodrigues, não conseguem viver a não ser “À Sombra das Chuteiras Imortais” ou, com o João Saldanha, “nos Subterrâneos do Futebol”, que me deu um senhor trabalho para pescá-lo em um sebo antigo. Só que, desta vez, minha paixão anda quase me matando do coração. Aguentar ver a Espanha – campeã do mundo na última Copa, bicampeã da Eurocopa e campeã da Champions League, com dois times de Madri disputando a final – ser despachada logo de cara é demais. Depois, ver o Irã dar um sufoco na Argentina e, se não bastasse isso, no mesmo sábado, ver Gana arrebentar os nervos de aço dos alemães... Santo Deus! Só faltava Camarões ser campeão! Não, ainda falta muita coisa a que vou assistir bem de longe, isto é, como estou assistindo a tudo, via televisão, porque acho feio estádio sem geral, estádio onde ninguém precisa de radinho de pilha e para onde madame vai de sapato Chanel. Que me chamem de “populista”: não estou nem aí! Vou continuar o dia inteiro só conseguindo ler meus livros nos intervalos, ainda revendo mentalmente a pelota rodar de pé em pé. Mas que está dando calafrio, ah, isso está. E dos bons. Cada vez em que os times entram em campo, que são tocados os hinos de cada país, ou, com pompa e circunstância, sua excelência, o árbitro, pega a bola estrategicamente dominando o pedestal na entrada do túnel, começam minhas mais caras emoções. E ainda pode ser que aconteça o que vaticina uma de minhas filhas, gozando minha paixão: “Sofra não, mãe! O Brasil vai ganhar esta Copa; Copa quem ganha nem sempre é o melhor time!” Esperemos pra ver. Que assim seja!

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