Grondona se apoia em lema de vida para esquecer polêmica com Maradona

Presidente da AFA reconhece exagero em crítica feita ao ex-jogador, que foi chamado de pé-frio após vitória da Argentina sobre o Irã

iG Minas Gerais | FOLHAPRESS |

DIVULGAÇÃO/AFA
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Julio Grondona, 82, sabe que ultrapassou o limite da razão ao chamar Maradona de "mufa" (pé-frio). A declaração teve péssima repercussão na Argentina. Também dentro do elenco da seleção. Os jogadores idolatram o ex-camisa 10. Ele não comenta mais nada sobre o assunto. Mais uma vez, vai usar o seu lema de vida. A razão pela qual está na presidência da AFA (Associação de Futebol Argentino) desde 1979. A mesma frase que mandou grafar em anel de ouro que usa o tempo inteiro. "Todo pasa." Tudo passa, em tradução livre do espanhol. "Chamá-lo de pé-frio foi um absurdo. Eu já escrevi isso e vou repetir. Se Diego é pé-frio, eu quero ser pé-frio ao lado dele para sempre", reclamou à reportagem o ex-zagueiro Oscar Ruggeri, campeão com o camisa 10 no México em 1986, quando Grondona abraçava e beijava repetidas vezes Maradona após a vitória sobre a Alemanha Ocidental na final. O cartola chamado de "Don Julio" utiliza o 'tudo passa' como princípio. Jamais destruir relacionamentos de forma que não possam ser reparados mais tarde. Nunca virar as costas definitivamente para nada. Ter a certeza de que, não importa o pecado cometido, este será esquecido com o passar do tempo. A relação com Maradona é exemplo disso. Ele já foi aliado, inimigo, aliado e inimigo novamente do maior ídolo do futebol argentino. Brigaram e reataram diversas vezes. O ex-jogador queria continuar no comando da seleção após a eliminação nas quartas de final na Copa do Mundo de 2010, na África do Sul. Grondona despistou. Primeiro disse que sim, depois que não. O contrato do treinador não foi renovado. "A grande característica dele é saber para que lado o vento sopra. Em 1994 [na suspensão de Maradona por doping], ele tinha a opção de defender Diego ou ficar do lado da Fifa. Escolheu a Fifa. Após o Mundial da África do Sul, ele dizia publicamente que Maradona continuaria como técnico, mas sabia que isso não aconteceria. Fez isso porque sabia que Diego tinha amigos poderosos e ia acioná-los. Ele esperou passar o tempo e o dispensou", lembra o jornalista Ezequiel Fernandez Moores, colunista do jornal "La Nación" e especialista em AFA. O "tudo passa" também lhe cai como uma luva porque conseguiu sobreviver a diversas tentativas de tirá-lo do comando da Associação. Em 1979, quando se candidatou, não era o candidato da ditadura militar do general Jorge Rafael Videla. Foi eleito pelos clubes. Agiu nos bastidores para ser aceito. Conseguiu. Em 1983, usou o argumento de ser filiado à Unión Cívica Radical, partido do primeiro governo civil do país após sete anos, para se autoproclamar um democrata. Os assessores do presidente Raúl Alfonsín não o queriam no comando do futebol, mas não tiveram como tirá-lo. Cinco anos depois, o novo presidente Carlos Menem também não queria ver Grondona pintado de ouro. Mas se acertaram pouco depois. Don Julio era aliado do Grupo Clarín, a principal organização midiática da Argentina. Quando governo de Néstor Kirchner (e depois de sua mulher, Cristina) rompeu com a empresa, Grondona se aliou ao lado mais forte. Costurou o "Futebol Para Todos", programa estatal que comprou os direitos de transmissão das partidas do Campeonato Argentino e distribuiu dinheiro aos clubes. "Julio Grondona tem a habilidade para saber a hora de trocar de lado. Por isso está onde está até hoje e chegou ao comitê executivo da Fifa. Os clubes estão na mão dele e é difícil quebrar isso", declara o empresário Daniel Vila, ex-presidente do Independiente Rivadavia, clube da Segunda Divisão. Ele é um dos raros inimigos declarados do cartola. E quando teve oposição, contou com a sorte. Em 1986 e 1990, sofreu sérias ameaças nas eleições da AFA. Nos dois anos, a seleção foi bem nas Copas do Mundo. Foi campeão na primeira e vice na segunda. "Algumas vezes apareceram dirigentes críticos e ele, com um discurso ético. Grondona imediatamente os cooptava, oferecendo cargos dentro da Associação. As pessoas dizem que ele só sai da AFA em um caixão. A sensação parece ser essa", completa Moores. Em 2015, há eleições marcadas na entidade. Ele não diz se vai lançar novamente candidatura. Outras vezes, disse que se retiraria e isso não aconteceu. Tudo passa para Julio Grondona, menos seu reinado no futebol argentino.