Ex-ministro de FHC diz que restou a Dilma bagaço de Lula

Luiz Carlos Mendonça de Barros Fundador e estrategista da Quest Investimentos

iG Minas Gerais | Helenice Laguardia |

“A economia para Dilma foi como uma laranja, que o Lula chupou todo o caldo e entregou para ela seca, e ela continuou chupando sem sair nada”
TIÃO MOURÃO/VB
“A economia para Dilma foi como uma laranja, que o Lula chupou todo o caldo e entregou para ela seca, e ela continuou chupando sem sair nada”

Em entrevista a O TEMPO, durante o Conexão Empresarial, da VB Comunicação em Araxá, o ministro das Comunicações no governo FHC e economista Luiz Carlos Mendonça de Barros, 72, afirmou que a presidente Dilma precisa fazer as pazes com os empresários. Quando o senhor fala do “pibinho”– numa alusão ao Produto Interno Bruto – PIB) do governo de Dilma Rousseff, quer dizer que foi um fiasco o crescimento do país nessa administração?

O que eu digo é o seguinte: em 2011, a conjuntura da economia brasileira em relação ao período do ex-presidente Lula mudou de uma maneira muito importante. Quando Lula tomou posse, o crédito ao consumo era muito baixo mesmo, o desemprego era muito alto, os aeroportos e as estradas estavam vazios. Isso a economia chama de “capacidade ociosa”. Tinha a oferta de serviços que não estavam sendo usados. E aí, o que aconteceu no governo Lula?

Com o Lula, o primeiro impacto foi na parte externa. A China começou a importar muito do Brasil, as exportações cresceram, e o dólar, que estava muito alto, começou a se desvalorizar. O dólar estava a R$ 4 e foi para cerca de R$ 2,2. No Brasil, 40% da cesta de consumo brasileiro era indexado ao dólar. A soja tem preço em dólar, o milho tem preço em dólar, o trigo... Quando o real se valorizou, o preço desses produtos todos caiu. Com o salário constante, isso representou um aumento imediato dos salários, e esse pessoal começou a consumir. Assim, as empresas começaram a produzir mais. Mas como as empresas tinham capacidade ociosa, essa retomada teve uma margem de lucro muito mais alta. Então, ficou feliz para todo mundo. O consumidor, que estava comprando mais, porque a renda tinha crescido, a empresa que estava ganhando mais dinheiro, e os bancos começaram, nesse ambiente, a dar crédito. Então, era como se tivessem foguetes auxiliares que pegaram o avião e levaram ele para cima. E qual é o período em que podemos delimitar esse bom momento do Brasil?

De 2003 a 2010. Em 2010, tinha mudado tudo, porque o dólar já tinha caído lá em baixo, a China tinha desacelerado, o crédito bateu no limite, e vimos que 30% é o máximo. Quando bate nos 30%, não adianta mais ofertar crédito, como a Dilma fez, porque a pessoa não consegue. Então, a economia começou a desacelerar. Eu sempre digo: a economia para Dilma foi como uma laranja, que o Lula chupou todo o caldo e entregou para ela seca, e ela continuou chupando sem sair nada. E a presidente Dilma não percebeu isso?

Não percebeu. Todas as ações dela foram no sentido de tentar recuperar o consumo anterior, só que virou inflação, porque não tinha mais oferta, a oferta estava no limite. Virou inflação, o Banco Central subiu os juros, deu um outro baque para baixo, porque com os juros mais altos, os consumidores reduziram as compras, as empresas pararam de investir. Qual foi o maior erro de Dilma no governo do país?

O maior erro dela: ela entrou em atrito com o empresariado. Dilma é muito mais ideológica do que Lula, e, para ela, o Estado é o comandante da economia. Dilma interferiu na parte elétrica, não parou com as privatizações. O que eu procurei separar (durante a palestra do Conexão Empresarial, da VB Comunicação, na sexta-feira passada, em Araxá) é o seguinte: não transforme uma crise conjuntural agravada por um erro de política econômica em uma crise estrutural do país, porque o país está muito bem com aquelas mudanças todas. O que a presidente Dilma tinha que ter feito quando viu que o consumo não conseguia mais sustentar o crescimento do Brasil?

Ela tinha que ter ido para o lado do investimento, fazer as pazes com o empresariado, e ela não fez. Tem casos de funcionários importantes dela destratarem empresários, o que passou a imagem de um governo quase soviético. Todo mundo fugiu. Tanto que o Lula disse outro dia que ela tem que chamar os empresários, ganhar confiança. Se o Aécio Neves (candidato do PSDB) entrar, vai ser um boom. Todos esses desencontros podem fazer a presidente Dilma perder a eleição deste ano?

É difícil para o povão entender isso. Esse sujeito que virou classe média tem uma cabeça diferente do cara que estava na informalidade, e ela não entendeu isso. Esse sujeito, como mostrou uma pesquisa da “Folha de S.Paulo”, diz que 70% dos entrevistados querem mudança. Mas 30% acham que ela é a mudança, 30% acham que ela não faz a mudança. E tem uma parte, 30% a 40% está em dúvida, mas ainda vota nela, por respeito ao Lula. As pessoas sabem que foi o Lula que fez essas mudanças, não foi o presidente Fernando Henrique Cardoso. Então a gente tem um empate nesse cenário econômico? Sim. E é por isso que ela está em dificuldade. O senhor então vê um cenário caótico se Dilma ganhar e continuar com essa mentalidade? Não digo caótico, vamos baixar a bola. Eu vejo um cenário difícil sem ela chegar a um acordo com os empresários. Mas o senhor acredita que ela está disposta a fazer um acordo com os empresários?

Não sei, isso a gente não vai saber porque ela é uma mulher muito complicada. O que a gente sabe é que, se ela ganhar e não fizer esse movimento, a economia vai ficar tão ruim que o governo dela em um ano vai ficar com todo mundo contra ela, e ela vai ser obrigada a mudar. E o papel do ex-presidente Lula tem sido fundamental?

O Lula a tem pressionado a conversar. Olha o segundo turno, ela tinha 54% e o Aécio, 27%. Depois, 50% e 31%. Olha hoje, 46% e 38%. Eram 27 pontos de diferença, e, agora, são oito pontos. É a economia que vai decidir a eleição?

Esse ano tem uma diferença, que é a seguinte: o respeito ao Lula do pessoal de renda mais baixa. A Dilma é muito cabeça dura e ideológica. O Lula não é, o Lula é líder sindical e vai para o lado que acha certo. Qual foi a contribuição desse governo, em linhas gerais?

Foi importante. Naquele momento, era possível e era muito bom desviar um pouco o lucro das empresas para o salário dos trabalhadores porque as empresas estavam com um volume de lucro muito grande. E ao desviar para os trabalhadores, aumentou a renda. O que eu sempre digo é o seguinte: o sucesso dessa mudança é a combinação de dois governos, do Fernando Henrique Cardoso (FHC) e do Lula. Porque o Lula nunca faria o que o FHC fez, de reforma e estabilidade, e se não fizesse isso, o governo dele seria outra coisa. Para nós, brasileiros, foi uma sorte a combinação dos dois.

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